
Texto: Karla Luz / Edição: Luan Matheus Santana
Israel lançou uma ofensiva contra o Irã, sem provocação ou respaldo legal. O Irã respondeu. Mas a mídia ocidental rapidamente reescreveu a narrativa para posicionar Israel como vítima, como sempre. Essa não é uma guerra. É um projeto sistemático de extermínio, sustentado por armas, alianças e manchetes. E o jornalismo, quando silencia ou distorce, deixa de informar: participa.
Na madrugada de 12 de junho de 2025, o Estado de Israel iniciou um ataque aéreo coordenado contra mais de cem alvos no Irã, incluindo instalações nucleares, sistemas de defesa e áreas civis. A operação foi batizada de “Nação de Leões”, Uma tentativa cínica de estetizar a agressão, ocultando que o que ocorria ali não era uma manobra estratégica, mas um crime internacional. O Irã respondeu com uma ofensiva militar, atingindo alvos estratégicos em território israelense. E foi então que a imprensa internacional anunciou: começou a guerra.
Mas é preciso rejeitar essa narrativa. Não se trata de guerra. Não há dois lados em igualdade de condições. Não há simetria de forças ou responsabilidades. O que está em curso é a expansão de um projeto colonial sustentado pela violência e legitimado por uma imprensa que insiste em maquiar agressão com palavras neutras. Guerra é um termo que sugere legitimidade mútua, quando, na verdade, estamos diante de um ciclo unidirecional de dominação e extermínio.

A operação de Israel foi unilateral, não provocada, não autorizada por nenhum organismo internacional e sem qualquer base legal, um clássico caso de violação da Carta da ONU. E ainda assim, foi apresentada como “autodefesa”. As manchetes repetiram o termo com a naturalidade de quem já escolheu de que lado está. Nenhuma pergunta foi feita sobre a legalidade da ação. Nenhum destaque foi dado ao fato de que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), não havia confirmado qualquer ameaça nuclear iraniana.
Israel chamou de “ataque preventivo” o que, no direito internacional, é conhecido como guerra de agressão. A Carta das Nações Unidas é clara: o uso da força só é permitido em caso de ataque armado real ou mediante autorização expressa do Conselho de Segurança. Não existe, em nenhuma base jurídica legítima, o direito de bombardear outro país com base em suposições. O termo “ação preventiva” é uma ficção inventada por potências militares para justificar violações.
Mas nada disso parece importar quando o agressor é Israel. A mídia, e boa parte dos governos do Ocidente, já está habituada a operar como sua cobertura moral. O mesmo roteiro se repete: Israel bombardeia, o outro lado responde, e então o “conflito” começa. Como se a primeira morte não contasse. Como se a agressão não precisasse ser contextualizada. Como se Israel tivesse um salvo-conduto permanente para matar.
Esse padrão não é episódico. Ele é histórico. Desde 1948, Israel tem conduzido um projeto de ocupação, apartheid e limpeza étnica contra o povo palestino. A Nakba, a expulsão de mais de 700 mil palestinos, foi o marco de um plano colonial que jamais cessou. Com o tempo, vieram os assentamentos ilegais, os cercos em Gaza e Cisjordânia, os muros, os checkpoints, as execuções sumárias, a destruição sistemática da infraestrutura civil palestina.
Gaza, por exemplo, é hoje um laboratório de controle social e extermínio: mais de 2 milhões de pessoas confinadas, sem acesso regular a água potável, energia, alimentos e remédios. Em 2024, a Corte Internacional de Justiça declarou plausíveis as acusações de genocídio contra Israel. Relatores da ONU confirmaram uso deliberado da fome como arma. Organizações como Human Rights Watch e Anistia Internacional documentaram bombardeios a hospitais, escolas, campos de refugiados.

E mesmo assim, o discurso dominante permanece: Israel é a única democracia da região, cercada por inimigos que odeiam sua liberdade. A mídia, em vez de desmentir essa farsa, a reproduz. E, para protegê-la, recorre a uma das armas mais eficazes do silenciamento contemporâneo: a manipulação do conceito de antissemitismo.
Toda crítica ao Estado de Israel é imediatamente confundida, ou deliberadamente apresentada, como antissemitismo. Mas é fundamental separar as coisas. Judaísmo não é sionismo. E antissionismo não é ódio aos judeus. Sionismo é uma ideologia política nacionalista, colonial e expansionista. Judaísmo é uma tradição espiritual e cultural milenar, diversa e multifacetada. Confundir os dois, como fazem os defensores do apartheid israelense, é uma estratégia para deslegitimar toda forma de denúncia.
Aliás, muitos dos críticos mais corajosos de Israel são judeus antissionistas, que se opõem frontalmente à apropriação da sua identidade para justificar crimes contra a humanidade. Silenciar essas vozes, como faz grande parte da imprensa, é parte do mesmo projeto de apagamento que vitimiza diariamente o povo palestino.
O que está em curso não é uma nova guerra. É o aprofundamento de uma guerra que nunca acabou, contra a Palestina e contra qualquer nação da região que não aceite se submeter à hegemonia militar israelense. A ofensiva contra o Irã só confirma o que já está evidente há muito tempo: Israel não quer segurança, quer controle. Não quer coexistência, quer supremacia. E para isso, conta com drones, tanques, diplomatas e jornalistas.
O jornalismo não pode continuar chamando de “conflito” o que é massacre. Não pode seguir tratando como “equívoco tático” o que é projeto genocida. Não pode repetir como papagaio termos como “Espada Silenciosa” ou “ação preventiva” sem questionar o que essas expressões escondem: sangue, escombros e silêncio.

Toda morte é uma tragédia. Toda vida perdida sob bombardeios, sob o peso de escombros ou no silêncio de um bloqueio, é uma derrota da humanidade. Não há vitória possível quando os corpos que tombam são de civis, crianças, trabalhadores, pessoas comuns. A guerra, mesmo quando provocada, não deveria ser uma opção. Mas é preciso dizer com honestidade: quem escolheu esse caminho foi Israel. Ao agir com impunidade, ao atacar sem provocação, ao violar o direito internacional e insistir num projeto de dominação e limpeza étnica, Israel reacendeu um fogo que agora ameaça todos. É condenável a escalada, a violência e a guerra, mas jamais aceitável que se apague a responsabilidade de quem atirou primeiro.
O Irã respondeu. Israel provocou. A mídia inverteu. E a Palestina continua morrendo, sem manchete, sem nome, sem defesa.
Para ler mais:https://www.justsecurity.org/109393/icj-measures-protect-civilians-gaza/
https://nypost.com/2025/06/13/world-news/netanyahu-justifies-operation-rising-lion-airstrikes-against-iran-to-stop-islamic-regime-from-developing-nuclear-weapons
https://www.un.org/unispal/document/summary-of-icjs-order-24may24
https://www.reuters.com/world/middle-east/israel-says-it-strikes-iran-amid-nuclear-tensions-2025-06-13: A farsa da autodefesa: o ataque de Israel, o revide do Irã e a narrativa que sustenta o genocídio.
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