
Por Manoel Ciriaco
EPISÓDIO 1:
Sou publicitário e roteirista profissional. Tento ganhar a vida desde a juventude fazendo esse trabalho. Escrever textos que se transformarão em cenas, imagens e diálogos, sejam roteiros de ficção, informação, ou educação. A quantidade de pessoas que fazem esse ofício na nossa cidade não é muito grande, creio que poucas centenas, talvez algumas dezenas. Não falo isso por envaidecimento ou algo parecido. Não é uma atividade glamorosa, como parece à primeira vista. E pode ser cruel como qualquer outra desempenhada pelo trabalhador.
Em setembro, fui contratado para redigir o roteiro final dum filme já com uma história original escrita. Trata-se dum trabalho usual, quando são inseridas as descrições de cenas e as “falas” definitivas, aquelas que serão utilizadas nas filmagens. Me disseram que o orçamento estava limitado. Para um serviço que vale algo em torno de 20 salários mínimos, por baixo, me ofereceram 10 salários. Eu receberia R$ 16.000,00 (dezesseis mil reais), que é igual a 1,06% da verba do filme (R$ 1.500.000,00), a serem pagos em 4 parcelas, a última no final do ano de 2025. Situação financeira difícil, a minha, como sempre – aceitei.
Fiz o meu trabalho, dentro de prazo, observando as normas, a nossa cultura, a dignidade humana, os valores duma sociedade mais justa etc. Se não houve brilhantismo, há correção, dedicação e compromisso em fazer bem feito. Estamos em dezembro. Até o momento, recebi pouco mais da metade do contrato, R$ 8.500,00 (oito mil e quinhentos reais), quando deveria estar recebendo os R$ 4 mil restantes.
Pra piorar as coisas, além de não conseguir receber o pagamento pelo trabalho que foi feito e entregue, a produtora está me colocando uma condição para receber o restante: abrir mão duma parte do valor que foi contratado, R$ 3 mil reais. Para um trabalhador, ter que se sujeitar a isso é deprimente, aviltante, seja quanto for o desconto. Significa que seu trabalho tem pouco valor. Que VOCÊ tem pouco valor.
Então, não vou aceitar acordos e, portanto, posso ficar sem receber o restante do meu pagamento. Muitos vão me indicar que busque a Defensoria Pública. É meu último recurso. Tenho muito receio de que seja aconselhado a aceitar aquilo que me “oferecem”. É o que tenho visto ultimamente.
Quanto ao aspecto jurídico, explico que o filme em questão, a ser realizado, teve financiamento federal, via Lei Paulo Gustavo. Já que tenho muito poucas esperanças de receber aquilo que me é devido, a minha única alternativa será entrar, talvez junto ao Ministério Público Federal, com o questionamento do Direito Autoral, para impedir que o roteiro final escrito e entregue por mim seja filmado.
Em outras palavras, pra defender o meu direito, talvez seja inviabilizada, ou pelo menos adiada por não se sabe quanto tempo, a realização de mais um filme piauiense. Por isso, enfim, é que estou aqui: pra pedir ajuda. Jurídica, emocional, espiritual (reza, mandinga etc.) e financeira, por meio de trabalhos que eu possa executar nessa área e ser remunerado corretamente. A necessidade grita e arrudeia.
O mais engraçado é que há notícia que essa mesma produtora teve conduta financeira responsável com profissionais de nome nacional. Então, pra eles, nós, trabalhadores piauienses, é que somos o problema, é que temos pouco valor. Ou nenhum!
Muito obrigado pela atenção.
EPISÓDIO 2:
CENAS DO CAPÍTULO ANTERIOR: No primeiro episódio dessa novela de quinta categoria, vimos que uma Produtora de Audiovisual piauiense recebeu R$ 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais), por meio da Lei Paulo Gustavo, para produzir um filme. A dita Produtora contratou um redator profissional (este que vos fala) para escrever o texto final do roteiro do filme, pela quantia de R$ 16.000,00 (dezesseis mil reais). Mas, vejam só, para que o profissional da escrita receba a parte final de seu pagamento, a Produtora exige que ele abra mão de R$ 3.000,00 (três mil reais).
Continua depois dos comerciais! (Espaço reservado para merchandising de produtoras, agências e empresas ligadas à arte, cultura e comunicação que respeitem o trabalhador piuiense).
Pois bem! Após o primeiro capítulo da novela ir ao ar, recebo mensagem da produtora me corrigindo que o meu trabalho não foi de redação do “Roteiro final”, o que eu teria feito seria uma mera revisão. Bem, seja como for, o roteiro que vai ser usado para fazer o filme tem minha redação final. Não foi pago e, portanto, não deve ser usado!
O segundo argumento da Produtora é que nunca houve um contrato de R$ 16 mil. Algo também estranho. Se não houve contrato de R$ 16 mil, por que a Produtora me propõe pagar R$ 13 mil por um trabalho de “revisão”? Por causa dos meus lindos olhos pretos? Por que eles são boníssimos de alma e coração?
Mas, ao final, a Produtora disse que me pagaria o restante neste dia 3 de dezembro. Fiquei que nem o Coronel, de Gabriel Garcia Marquez, que aguarda uma carta que nunca chega com o anúncio duma pensão a qual faz jus. Sem outra alternativa, em meio às dificuldades, o Coronel acaba levando à panela a última ave de estimação da família.
Agora eu percebo que não haverá pagamento nenhum, que o “moderno empresário piauiense” cultiva o antigo hábito de sufocar os trabalhadores demoradamente, até que desfaleçam de cansaço, fome e desesperança. Acho que vão falhar, apesar de tudo. Esse caso não está me tirando apenas R$ 7mil e 500. Tirou minha paz. Muitas noites de sono. Minha saúde emocional. Fui jogado numa crise de ansiedade absurda, pânico em sair de casa.
Mas, eu sei que as repercussões dum acontecimento assim não recaem somente dum lado. Todos pagam as consequências. E eu pergunto: Vale pena tudo isso só pra não pagar R$ 7.500,00 (sete mil e quinhentos reais)? Tomara que, ao final, tenha valido.
Eu, pelo menos vou treinando minha escrita de pouco valor, mesmo que a novela seja de péssimo nível.
Amanhã tem novo episódio, já com a constituição do meu advogado. Vou apresentar o que estou pleiteando na Justiça.
Muito obrigado pelo apoio. Continuem comentando, compartilhando e curtindo. Quem quiser publicar em sites e portais, não se acanhe – essa novela do desrespeito ao trabalhador vai longe, todo dia tem capítulo novo.
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