
As comunidades que serão atingidas pelos megaprojetos de energias renováveis no município de Bom Princípio, na Planície Litorânea do Piauí, seguem sem assistência dos responsáveis pela implantação dos complexos solares, que aguardam licenças ambientais para se instalarem. Somente na região do município, estão previstas a chegada de onze usinas solares. A primeira delas, o Complexo Solar Marruás, da empresa alemã Ib Vogt, ocupará 1.900 hectares.
Na quinta-feira, 30 de julho, a Rede Ambiental do Piauí, o Coletivo Nordeste Potência, o Grupo de Estudos sobre Impactos das Energias Renováveis (GETIER) e o apoio do Fórum Carajás realizaram o Seminário sobre os Impactos das Energias Renováveis no Piauí, reunindo moradores dos povoados Sítio dos Queiroz, Marruás, Baixão, Jenipapo, Nova York e Lagoa Escura, comunidades que serão diretamente atingidas pela usina, para informar sobre as alterações que virão com a instalação do complexo solar. Entre elas, destacam-se a falta de transparência quanto à permanência das famílias nas terras onde vivem e tiram seu sustento.

Na análise dos coletivos que estudaram o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do empreendimento, as medidas previstas no documento são mínimas, evasivas e não garantem sequer os direitos básicos como moradia, saúde e o direito ao cultivo agrícola de subsistência. O estudo também falha ao não considerar impactos ambientais significativos, como a erosão, principalmente no período chuvoso, quando podem ocorrer soterramentos e alagamentos.
Embora convidada para prestar esclarecimentos sobre os impactos do projeto, a Ib Vogt justificou sua ausência afirmando ter cumprido todas as condicionantes solicitadas pelo órgão ambiental. Alegou ainda ter realizado uma audiência pública para ouvir as comunidades — procedimento que, na prática, não passou de mera formalidade. “Foi só jogo de cena”, disse Francisca, moradora de uma das comunidades atingidas, durante o seminário. Segundo ela, a informação sobre a audiência foi truncada: “Soube da reunião, mas não sabia pra que era. Não explicaram.”
Presente no evento, a secretária de Meio Ambiente do Município, Zilmar Silva, interveio ao ouvir o relato, afirmando que a empresa fez ampla divulgação da audiência, disponibilizou ônibus e ofereceu ajuda de custo para quem quisesse participar por conta própria.
O professor João Centelhas, pesquisador dos impactos das energias renováveis, apontou diversas falhas no Estudo de Impacto Ambiental do Complexo Marruás não reconhecidas pela empresa nem identificadas pela Semarh (Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado). Entre elas, a ausência de informações claras sobre como serão tratadas as alterações no modo de vida das pessoas durante e após a construção do empreendimento, cercado por um mar de placas solares com forte efeito de concentração de calor local.
Durante a fase de obras, as comunidades Sítio dos Queiroz e Nova York serão fortemente impactadas por poeira, trânsito intenso de veículos pesados e pela presença de trabalhadores vindos de outras regiões — informações que estão ausentes no EIA.
Já as comunidades Jenipapo e Lagoa Escura, situadas em áreas de convergência de drenagem hídrica e escoamento de sedimentos, ficarão desprotegidas diante do assoreamento que certamente ocorrerá com as enxurradas no período chuvoso, após o desmatamento dos 1.900 hectares para instalação das placas.
Apesar dos impactos previstos, o governo do estado não se manifestou sobre o assunto. Provocada, a Semarh, o Instituto de Terras do Piauí (INTERPI) e a Secretaria de Relações Sociais permaneceram em silêncio.

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