
No centro de uma polêmica política, o Grupo Matizes – que desde 2002 organiza a Parada da Diversidade em Teresina – não abriu mão de sua autonomia e coerência. A mesma autonomia que fez do grupo uma referência nacional da luta em defesa da população LGBTQIAPN+.
Há 23 anos, o grupo organiza as Paradas da Diversidade em Teresina, levando para as ruas as cores e os brilhos de quem teima ter orgulho de ser, mesmo em uma sociedade marcada pelos discursos de ódio, lgbtfobia e transfobia. Mas não é apenas festa, é ação e formação política. Em 2025, o grupo organizou a 19ª SEMANA DO ORGULHO DE SER, entre os dias 09 a 12 de setembro, com palestras, oficinas, exibição de documentários, rodas de conversa, entre outras atividades.
Apesar disso, nos últimos meses, páginas de fofoca e até artistas da cena local inflaram um discurso ‘monopólio’ em torno da organização da Parada da Diversidade em Teresina, como forma de validar e elogiar a “Parada Day”, evento organizado pela Secretaria de Cultura, após rompimento com Grupo Matizes.
Desde o início de 2025, o Matizes vinha se mobilizando para garantir os recursos necessários para a realização da 23ª edição da Parada da Diversidade, chegando a participar de reunião com a Secretaria Estadual de Cultura (Secult), quando foi informado de que havia R$ 280 mil reservados para o evento. No entanto, a liberação do recurso estaria condicionada a algumas exigências impostas pela secretaria, como a exclusão dos vendedores ambulantes que tradicionalmente trabalham na Parada. “Não aceitamos, não abriremos mão da nossa autonomia”, afirma Marinalva Santana, coordenadora do Grupo.
Sem diálogo com o movimento, a Secult surpreendeu ao anunciar, de forma unilateral, a realização do “Parada Day”, programado para apenas dois dias após a data prevista para a Parada organizada pelo Matizes, com um investimento superior a R$ 400 mil. Na nota divulgada à sociedade, o Matizes deixa claro que não abrirá mão do caráter inclusivo que marca a Parada da Diversidade desde sua primeira edição, em 2002. A organização argumenta que a retirada dos mais de 150 trabalhadores informais que dependem da venda de alimentos e bebidas durante o evento seria uma medida excludente e desumana, em contradição com os princípios de igualdade e justiça social que fundamentam a manifestação. O grupo também criticou a “camarotização” e a concentração de lucros em grandes empresas que, segundo eles, têm sido privilegiadas em outros eventos financiados com recursos públicos.
A Parada da Diversidade, organizada há mais de duas décadas pelo Grupo Matizes, é considerada um dos principais eventos de rua de Teresina e tem papel central na luta pela igualdade e no combate à discriminação. Reconhecida oficialmente no Calendário Cultural do Município (Lei nº 4148/2011) e declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Piauí por projeto aprovado na Assembleia Legislativa em 2024, a Parada se consolidou como espaço de visibilidade, resistência e diálogo com a sociedade. Para o Matizes, preservar a identidade original do evento, sem exclusões e sem submissão a interesses comerciais, é fundamental para manter sua força simbólica e política em prol da diversidade e dos direitos humanos.
Lin da Quebrada é atração principal da Parada de 2025

O Grupo Matizes anuncia a cantora, atriz e ativista Linn da Quebrada como grande atração da 23ª Parada da Diversidade de Teresina, que será realizada no dia 3 de outubro.
Este ano, a Parada volta a ter o show de encerramento na Praça Pedro II, onde o evento e a resistência nasceu, em Teresina, no ano de 2002. É também uma oportunidade de revitalizar o Centro da Capital. A concentração será na Praça da Bandeira e a passeata segue até a Praça Pedro II, onde vai ocorrer o evento principal.
Reconhecida nacionalmente por sua arte potente e transformadora, Linn da Quebrada é travesti, defensora dos direitos LGBTQIAP+ e transita pela música, cinema e comunicação com discursos que unem militância, política e cultura. A data do evento foi alterada para viabilizar a melhor entrega do evento, conseguindo reunir todos os artistas, palestrantes e estrutura para Teresina.
Mas afinal, você conhece a luta do Grupo Matizes?
Coletivo fundado em Teresina construiu pontes com Executivo, Legislativo e Judiciário, e tem um legado de políticas públicas, leis e precedentes jurídicos
Fundado em Teresina, o Grupo Matizes se consolidou como um dos principais movimentos LGBTQIA+ do Nordeste, transformando demandas da comunidade em políticas públicas, leis e decisões judiciais pioneiras. Em mais de duas décadas de atuação, a organização ocupou espaços institucionais, elaborou projetos de lei e judicializou casos que se tornaram referência em todo o país. Um estudo realizado pelas pesquisadoras as pesquisadoras Libni Milhomem Sousa e Olívia Cristina Perez, analisa as ações do grupo e as repercussões nos três poderes.

Ao longo da sua história, o Matizes teve presença forte dentro das estruturas de defesa de direitos. Foi protagonista na criação da Coordenação Estadual para Livre Orientação Sexual (Celos), dentro da Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Direitos Humanos (Sasc). O grupo também articulou a criação da Delegacia de Direitos Humanos e Combate à Discriminação (2005) e do Centro de Referência Raimundo Pereira, voltado para acolhimento da população LGBTQIA+. Outra vitória foi a instalação de conselhos LGBT em duas esferas: o Conselho Municipal (2010) e o Conselho Estadual (2016), que deram voz à comunidade na formulação de políticas.
Apesar dos avanços, ativistas relatam ciclos de aproximação e distanciamento com os governos. A partir de 2019, com o avanço da onda conservadora no país, o diálogo institucional foi drasticamente reduzido.
Da lei contra discriminação ao selo “Território Livre de LGBTQIA+fobia”
Na arena legislativa, o Matizes atuou como elaborador e assessor técnico de projetos de lei. Entre as conquistas mais emblemáticas está a Lei Estadual 5.431/2004, que prevê punições administrativas para casos de discriminação por orientação sexual.
Em 2012, o grupo conseguiu aprovar a PEC 04, que incluiu a expressão “orientação sexual” na Constituição do Piauí. Em Teresina, idealizou o Disk-Cidadania Homossexual (2004) e, mais recentemente, a criação do Selo “Teresina Território Livre de LGBTQIA+fobia” (2023), já adotado por empresas da capital. Essas vitórias confirmam a capacidade do Matizes de transformar pautas da militância em legislações duradouras.

Pioneirismo em decisões e acesso à justiça
No Judiciário, a atuação do Matizes se deu tanto no apoio jurídico direto à população quanto na judicialização de temas estruturais. Projetos de assessoria jurídica ajudaram casais homoafetivos em processos de união estável, casamento e retificação de nome.
Um marco histórico ocorreu em 2013: o grupo apoiou um casal homoafetivo em processo de reprodução assistida, e a Justiça do Piauí autorizou o registro da criança com o nome das duas mães — decisão pioneira, que serviu de base para cartórios de todo o estado.
O Matizes também foi responsável por ações emblemáticas, como o pedido de derrubada da restrição de doação de sangue por homens gays (2005) e o pleito pela inclusão de cônjuges homoafetivos no Imposto de Renda (2009).

Legado e importância
Ao articular-se de forma estratégica com os três Poderes, o Grupo Matizes ampliou não apenas os direitos LGBTQIA+, mas também o campo democrático no Piauí. Sua trajetória mostra que a luta por dignidade e reconhecimento não se restringe a uma pauta identitária, mas fortalece os direitos humanos em sentido amplo.
“De uma forma ou de outra, o Matizes conseguiu inserir o Piauí no mapa nacional da luta por direitos LGBTQIA+. Seja na formulação de leis, na criação de políticas ou em decisões judiciais pioneiras, sua contribuição é inegável para o avanço da justiça social”, resumem as pesquisadoras Libni Milhomem Sousa e Olívia Cristina Perez, autoras de estudo sobre o movimento.
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