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Incêndios na Mata Atlântica crescem 43%; no Piauí, o fogo ameaça a Serra Vermelha, um dos últimos remanescentes do bioma

Reportagem: Tânia Martins / Edição: Luan Matheus Santana

A Mata Atlântica — já reduzida a pouco mais de 12% de sua cobertura original — vive um dos períodos mais críticos das últimas décadas, impulsionado pelo avanço dos incêndios em todo o país. Em 2024, o bioma registrou cerca de 157 mil focos de queimadas, um aumento de 43% em relação ao ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O crescimento expressivo das queimadas, que também atinge outros biomas brasileiros, revela não apenas a intensificação da crise climática, mas também a ação humana direta sobre áreas de preservação. No Nordeste, a Serra Vermelha, localizada no sul do Piauí, surge como um símbolo desse processo: um dos últimos remanescentes significativos de Mata Atlântica na região, hoje ameaçado pelo avanço de incêndios criminosos que colocam em risco sua biodiversidade única e a memória ambiental do território.

Enquanto o governador do Piauí, Rafael Fonteles,  não permite criar uma Unidade de Conservação-UC, na Serra Vermelha — que também é a última floresta tropical do semiárido, com 114 mil hectares, entre os municípios de Curimatá, Morro Cabeça no Tempo, Redenção do Gurguéia e Bom Jesus — grileiros estão aproveitando para incendiar a floresta, em chamas desde o começo de novembro. Há cerca de 15 dias, o Corpo de Bombeiros deslocou equipe para região e identificou que mais de dois mil hectares de mata já haviam sido destruídos.

”É estranho porque os focos acontecem simultaneamente em locais distantes um do outros”, disse uma testemunha que mora em um dos povoados do entorno da floresta, em Morro Cabeça no Tempo. A comunidade onde mora foi atingida pelo fogo, assim como as comunidades  Cajueiro, Desejado, Arroz, Altamira, Gameleira, Flecha e Matos. Na zona rural de Curimatá moradores também acreditam em fogo orquestrado. “Sabemos até quem fez isso, mas ainda não temos a prova”, diz o dono de uma pequena propriedade que acredita ter sido crime praticado por investidores do agronegócio que querem a área para plantio de monoculturas.

O ex-prefeito do município, Reidan Maia publicou em rede social que sabe quem é o mandante dos incêndios. “É briga por terras, onde forças influentes querem que no futuro a região da Serra Vermelha perca seu status de mata preservada e primária, para exploração de soja e gado na região. Muitos anos de disputa. E o que me intriga, é porque o governador Rafael Fonteles não aceitou seguir a assinatura do Presidente Lula anexando esta região ao Parque Nacional Serra das Confusões”, disse.

É no silêncio que incêndios criminosos vão destruindo a floresta. E também no medo. Afinal de contas, nenhuma das pessoas ouvidas nesta reportagem aceitou ter seu nome citado. Um deles, um agente agropecuário, disse que trabalha por todo o Sul e Sudeste do Piauí e vem assistindo à entrega das terras estaduais para o que chama de “essas forças” — grileiros da região da Serra Vermelha. “Eles estão em todo o Sul do Piauí, fazendo o mesmo: aproveitando a seca para tocar fogo. Assim é em Santa Filomena, Gilbués, Baixa Grande do Ribeiro e onde existem residências de trabalhadores familiares. A SEMARH (Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos) autoriza desmatamento, repassa áreas sob suspeita de grilagem para o agronegócio e ainda pune as comunidades”, diz, com indignação. Ele acrescenta: “Aqui (Morro Cabeça no Tempo) também se trata de incêndios criminosos, planejados, porque aconteceram inúmeros focos ao mesmo tempo, como se fosse agendado”.

A visível proteção do governador aos “investidores” — como ele chama grileiros, fundos de pensão, empresas transnacionais e setores do agronegócio — tem contribuído para a destruição das matas do Piauí. No caso da Serra Vermelha, a área foi grilada pela empresa JB Carbon no início dos anos 2000, recebendo autorização inicial para destruir 6 mil hectares de floresta para produção de carvão e, posteriormente, para implantação de monoculturas. Esse processo só foi interrompido após decisão da Justiça, que comprovou tratar-se de terra pública e destinou a área à proteção integral.

O Instituto Chico Mendes (ICMBio) realizou estudos e classificou a Serra Vermelha como “prioritária para conservação”, encaminhando à Casa Civil a proposta de criação da Unidade de Conservação. Entretanto, ao consultar o governador Rafael Fonteles — um dos critérios formais para criação de UCs federais — sobre a proteção da área, ele se posicionou contra, alegando que “criar uma unidade de conservação ali vai trazer insegurança para os investidores”. A declaração foi dada em junho, quando o ICMBio tentou, mais uma vez, no Dia do Meio Ambiente, anexar a Serra Vermelha ao Parque Nacional Serra das Confusões.

O Centro de Conciliação em Políticas Públicas da Justiça Federal, coordenado pela juíza Marina Rocha Cavalcanti, manifestou-se favorável à proteção da floresta, em resposta à Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Federal. Porém, ações criminosas avançam na região para destruir a vegetação e assim impedir sua conservação. Além do fogo, grileiros vêm conseguindo registrar terras públicas por meio de corrupção em cartórios da região, conforme apurou o Instituto de Terras do Piauí (INTERPI), em resposta ao Centro de Conciliação. Segundo os advogados do INTERPI, após a decisão da juíza, em menos de 25 dias os cartórios emitiram inúmeros títulos — e não foi possível identificar quantos, porque os próprios cartórios se recusaram a fornecer as informações. Diante disso, a juíza solicitou à Corregedoria do Tribunal de Justiça que intime os cartórios a se explicarem.

A rica biodiversidade da Serra Vermelha

Estudada por pesquisadores renomados, a Serra Vermelha guarda tesouros relictuais de fauna e flora. Pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) mostram que a coexistência dos biomas Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica faz da região uma área de transição única, com diversidade incomum. O mesmo grupo, liderado pelo professor Hussam Zaer, descobriu ali uma espécie nova de lagarto, registrada como Tenocercus squarrosus. Pesquisadores do ICMBio também identificaram remanescentes de Mata Atlântica e encaminharam estudos ao IBGE para inclusão dessas e de outras áreas do Piauí no Mapa da Lei da Mata Atlântica, com o objetivo de evitar sua destruição.

Outro fator crucial para preservar a Serra Vermelha é sua importância para a recarga hídrica, por estar situada no limite entre as bacias dos rios Parnaíba e São Francisco, responsáveis pelo abastecimento humano e pela sustentação da biodiversidade regional.

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