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No Piauí, apenas 1 em cada 3 denúncias de racismo vira processo judicial

Abraão Teixeira ainda lembra do silêncio que tomou conta da sala quando ouviu, direcionado a ele, o tipo de frase que um jovem negro de 22 anos nunca deveria escutar no ambiente de trabalho — nem em lugar nenhum. “Ele chegou dizendo que todo preto era macaco e que a escravidão nunca deveria ter acabado”, conta. 

O caso já faz mais de dois anos e essas palavras ainda rodam a cabeça de Abraão. Em 2023, enquanto conversava com colegas sobre o caso de racismo vivido pelo jogador Vinícius Júnior, ele foi surpreendido por esse ataque racista. Ele trabalhava em uma empresa de produção de água mineral na zona sul de Teresina. “Nossos colegas ficaram pasmos, ficou aquele clima tenso, pensado, e eles ficaram olhando pra mim porque ele tava direcionando a conversa pra mim”, conta.

O agressor ainda debochou da possibilidade de punição. Disse que ele podia filmar, que o caso não ia dar em nada. Abraão, decidiu então, enfrentar. “Não é nem enfrentar, eu tô me defendendo. Eu decidi me defender, porque o silêncio, a opressão, é isso que eles querem. Eles querem nos diminuir, porque hoje o racismo parece que tá aprovado, que é transformado em piada hoje em dia, entendeu?

Abraão tentou buscar justiça dentro da própria empresa. Procurou seus superiores, denunciou e esperou por uma punição justa, que nunca chegou. A empresa minimizou a situação e disse que nada seria feito a menos que algo semelhante acontecesse de novo. Então, ele decidiu procurar a polícia. Registrou um boletim de ocorrência e, no mesmo dia, o colega de trabalho foi preso em flagrante por injúria racial, um crime grave, com pena que pode chegar a cinco anos.

Abraddão Teixeira – Arquivo Pessoal

Mas o que deveria ser um passo rumo à justiça tornou-se, para Abraão, o início de um novo ciclo de violência. É que no dia seguinte ele foi demitido. Sem conversar com o dono da empresa. Sem explicação. Apenas foi informado, de forma agressiva, que não precisava voltar. Seu crime? Denunciar o racismo.

Mas a história de Abraão, embora grave, não é exceção. É sintoma de um padrão maior. E os números comprovam isso. Em 2024, a Polícia Civil do Piauí registrou 339 casos de injúria racial, 65 casos de racismo e 6 crimes praticados por meios de comunicação. Somados, foram mais de um caso por dia no estado. Nos seis primeiros meses de 2025, foram 136 registros de injúria racial, 27 de racismo e 2 por meios de comunicação.

Ou seja, entre janeiro de 2024 e julho de 2025, a Polícia Civil registrou 575 boletins de ocorrência por crimes motivados por questões raciais no Piauí.  Mas quando esses números chegam ao Tribunal de Justiça, a realidade muda de figura: no mesmo período, o TJ-PI confirmou o ajuizamento de 175 processos relacionados à esses crimes, sendo 109 por crimes de preconceito, 63 por injúria racial ou intolerância por cor/etnia e 3 por intolerância religiosa. Ou seja: a cada três ocorrências de racismo no Piauí, apenas uma se transformam, de fato, em processos judiciais.

“O Piauí não tem uma cultura de registrar — e o Estado não investiga”

Para o sociólogo e especialista em segurança pública Marcondes Brito, o abismo entre boletins de ocorrência e processos judiciais é resultado direto das engrenagens do racismo institucional.

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“O Piauí não tem uma cultura de registrar esses casos. E, quando registra, o Estado não investiga. Não dá pra dizer que algum estado não é racista — porque o racismo é estrutural. Ele aparece no sistema policial e depois no sistema de justiça”, afirma.

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Segundo Brito, o dado mais relevante não é apenas quantos boletins são feitos. “Mais importante do que saber quantos B.O. foram registrados é saber quantos viraram inquérito — e quantos desses inquéritos viraram denúncia. Porque é a denúncia que vai dizer se quem cometeu racismo vai ser punido ou não”, afirma o sociólogo, expondo uma engrenagem conhecida por quem tenta buscar justiça: de cada etapa perdida, nasce mais um capítulo de impunidade. 

Racismo como prática cotidiana e silêncio como arma histórica

O caso de Abraão, os números das delegacias e a análise de Marcondes Brito revelam um cenário conhecido: o racismo se mantém tanto pela ação direta quanto pela omissão institucional. A subnotificação, os inquéritos que não avançam, a falta de denúncia e a ausência de punição formam o que especialistas chamam de “ciclo da impunidade racial”. Um ciclo que se repete todos os dias — e que, como no caso de Abraão, cobra seu preço não apenas no momento da agressão, mas em tudo o que vem depois.

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