
Ontem, dia 24 de novembro, celebramos o Dia Nacional do Rio, data dedicada a chamar a atenção para a importância vital dos cursos d’água e à urgência de preservá-los. Ironicamente, nesse mesmo dia, na margem norte do Rio Poty, nas proximidades do bairro Água Mineral, em Teresina, uma cena chamou atenção e rapidamente se espalhou pelas redes e chegou à imprensa. Cardumes de peixes mortos boiando nas águas do rio e empurrados pela correnteza fraca como se o rio, ele próprio, estivesse à beira do colapso.
O vídeo foi gravado pelo guia de turismo e ambientalista, Maurício Adrenalina. “Esse ponto fica próximo àquela ponte que está sendo construída, ao lado da estação de tratamento da Águas de Teresina, após a universidade (UFPI)”, explica. Segundo ele, existem algumas possibilidades que podem justificar a mortandade desses peixes. “Os produtos químicos que saem das lagoas, os próprios aguapés que podem provocar o sufocamento dos peixes”, afirma o guia, alertando a necessidade de uma investigação urgente. “Requer uma investigação muito criteriosa, porque é triste ver os peixes mortos e, ao mesmo tempo, ver cardumes inteiros, grandes, chegando e agonizando na margem”, finaliza.
Atualmente o Rio Poty está coberto de aguapés, fenômeno que ocorre todos os anos e evidencia a poluição do rio, que tem sido o destino final dos dejetos urbanos de Teresina desde o surgimento da cidade. Os muitos esgotos que são lançados em suas margens pode ser uma das causas da mortandade de peixes. “Pode ser intoxicação por contaminantes ou queda dos níveis de oxigênio como consequência da eutrofização causada por excesso de esgoto, que se acumulam nessa época de poucas chuvas”, sugere o Biólogo Davi Pantoja, professor da Universidade Federal do Piauí e Doutor em Ecologia.

São muitas as possibilidades. Mas desta vez algo parece destoar do padrão. De acordo com o professor Dr. Jeremias Pereira Filho, do Departamento de Biologia da UFPI, naquele ponto específico da foz — que integra a rede de monitoramento ambiental — a medição oficial registrou níveis de oxigênio dissolvido próximos de 6 mg/L, valores que, em tese, seriam suficientes para manter os peixes vivos.
Essa discrepância chamou atenção do professor, que também é limnólogo – profissional que estuda águas continentais, como rios, lagos, pântanos e aquíferos. “Não foi por falta de oxigênio que esses peixes morreram”, ele afirma. O dado afasta, pelo menos naquele trecho, a hipótese mais comum para eventos desse tipo. Jeremias, no entanto, aponta caminhos possíveis — todos ainda no campo das suspeitas, todos exigindo análises aprofundadas da água.
“Pode ter sido intoxicação por alguma substância, algum tipo de veneno… Mas também pode ter acontecido uma mudança brusca na densidade da água. Quando há uma mistura na coluna d’água, o material que está no fundo — que é anóxico — pode subir de repente. Isso causa um déficit localizado de oxigênio e os peixes não conseguem escapar”, explica.

Segundo ele, qualquer explicação agora é incompleta. “É difícil afirmar sem fazer as análises direitinho. Precisaria examinar a água, entender o que houve no microambiente naquele momento”, finaliza.
Enquanto especialistas tentam decifrar o que matou tantos peixes, o cenário maior continua inescapável. O Poty recebe diariamente toneladas de esgoto. A empresa responsável pelo saneamento, Água de Teresina, firmou acordo com a prefeitura para concluir a universalização do serviço apenas em 2033. Até lá, os impactos tendem a se intensificar — não apenas pela poluição histórica, mas pela força cada vez mais evidente das mudanças climáticas que alteram regimes de chuva, temperatura da água e a dinâmica dos ecossistemas.
A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semam) informou que tomou conhecimento do caso na manhã desta segunda-feira, 24, e enviou uma equipe técnica ao local para coleta de amostras e avaliação preliminar. A pasta afirmou que divulgará um posicionamento oficial “assim que houver informações concretas”.
Enquanto os laudos não chegam, resta a imagem que marcou esse Dia dos Rios: peixes imóveis, flutuando na superfície, como pequenas sentinelas anunciando que o Poty — um rio que já foi sinônimo de vida, de lazer, de beleza — está pedindo socorro. E que, mais uma vez, nós demoramos a ouvir.
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