
Hoje, 21/01, O Corre Podcast, um orginal da Plataforma Ocorre Diário, lançou um novo episódio que propõe uma inversão de perspectiva: olhar para os quilombos do Piauí não como espaços marcados pela falta, mas como territórios que ensinam caminhos concretos para enfrentar a crise do esvaziamento do sentido coletivo. “Quilombo escola: lições dos quilombos do Piauí para a cultura da doação no Brasil” é uma reportagem sonora que atravessa o campo, a cidade e a memória para discutir como o compartilhamento estrutura modos de vida mais justos e sustentáveis.
Narrado por Luan Matheus Santana e com participação especial de Salvador Viana, o episódio parte de uma vivência no Território Quilombola Lagoas, no sudoeste do Piauí, maior quilombo do estado e terceiro maior do Brasil, mostrando como o esse território funciona como uma escola viva, onde se aprende pelo fazer. Nas comunidades Lagoa das Emas e Lagoa do Moisés, mulheres organizadas em cozinhas comunitárias transformaram a alimentação em eixo de renda, cuidado e pertencimento. “A cozinha funciona diariamente porque é um ponto de encontro da comunidade”, explica Nailde Marques.

O episódio também recupera a história da parceria entre estudantes do Colégio Santa Cruz, de São Paulo, e o Quilombo Lagoas, mostrando como uma visita pedagógica se transformou em compromisso duradouro. O que poderia ser apenas uma ação pontual virou biblioteca, cozinha comunitária e rede de apoio contínua.
“Feio não é pedir, feio é deixar pedir”, ensina Joana Maria, quilombola, educadora e filha de Nego Bispo, ao refletir sobre o sentido do compartilhamento nos quilombos. Joana Maria é uma das vozes centrais do episódio e ajuda a deslocar o debate da caridade para outra lógica. “A gente não compartilha o que sobra, compartilha o que tem”, afirma. Para ela, o que sustenta a vida nos quilombos não é a ideia de ajuda emergencial, mas um pacto cotidiano de observação, cuidado e reciprocidade. O episódio recupera ainda ensinamentos de Nego Bispo, como o princípio de que “a vasilha de dar é a mesma de receber”, conectando território, ancestralidade e política, tendo o Caldeirão da Roça de Quilombo como fio condutor da história.

A narrativa se desloca então para a zona sul de Teresina, onde o episódio apresenta o terreiro liderado por Mãe Gardene, na Vila São Francisco. Ali, a lógica quilombola reaparece em contexto urbano. O terreiro não é apenas espaço religioso, mas também cozinha coletiva, ponto de cultura e rede de acolhimento. “A gente chama toda a comunidade pra participar, e a comunidade vem”, conta Mãe Gardene, ao descrever ações como a sopa comunitária e outras práticas de cuidado contínuo.
O podcast também escuta o psicólogo e antropólogo Igor Felipe, que pesquisou processos educativos fora da escola formal e encontrou no terreiro uma verdadeira sala de aula comunitária. “Cuidar do outro é cuidar de mim”, explica, ao relacionar espiritualidade, educação e saúde coletiva. Para ele, o aprendizado acontece no corpo, no movimento, no canto e na convivência: uma pedagogia que desafia a lógica individualista dominante.

Mais do que contar histórias, o episódio propõe uma reflexão direta para quem vive nas cidades: e se a solidariedade deixasse de ser exceção e passasse a ser estrutura? Ao reunir quilombos, cozinhas comunitárias, terreiros e trajetórias de mulheres negras, “Quilombo escola” mostra que o compartilhamento não é apenas um valor moral, mas uma tecnologia social ancestral, capaz de reorganizar a vida coletiva. O episódio já está disponível e convida quem escuta a repensar, com os pés no chão, o que significa viver junto.
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