
Texto: Arthur Serejo
Edição: Sarah F. Santos
Comunidades do litoral piauiense enfrentam a pressão de empreendimentos turísticos, eólicos e de carcinicultura e turismo que ameaçam seus territórios e modos de vida tradicionais.
Neste domingo, 19 de janeiro, aconteceu Círculo de Saberes – Pensar e Agir em Comunidade, que em sua terceira edição leva o tema “Escutando e Tecendo Histórias para Comunicar o Bem Viver no litoral piauiense” e quem recebeu a atividade foram as comunidades Porto de Areia e Macapá, no litoral do Piauí. A segunda etapa desta edição do Círculo reuniu comunidades e organizações do Piauí e Maranhão.

O dia ensolarado marcou o início de um diálogo com pessoas que, todos os dias, enfrentam a pressão para deixar suas terras e abandonar modos de vida ancestrais em nome de grandes empreendimentos, sejam eles empreendimentos turísticos, de energia dita renovável ou empresas de carcinicultura. O território, afinal, não é apenas um pedaço de chão: é o lugar onde vivemos, criamos raízes, cultivamos memórias e construímos pertencimento, foi o que ficou nítido durante as rodas de conversa com as comunidades.
“Eu vou pra cidade, onde eu não conheço nada de cidade? Eu entendo bem é da maré. Eu sei qual é a hora que tá boa pra pescar, qual é a hora que o peixe aparece. Agora, se eu bater numa cidade, eu vou morrer de fome, minha família também, porque eu não sei de nada daquilo ali”, contou Domingos ao relatar o medo de ser expulso do lugar onde sempre viveu.
O encontro teve como propósito construir uma comunicação para o bem viver e para mobilizar pessoas unidas por um mesmo objetivo — o direito ao território, à moradia, à identidade, à cultura e à vida.
Nesta confluência o OcorreDiário, idealizador do círculo, contou com alianças importantes do Laborejo – Grupo de Extensão do curso de Jornalismo da UFMA, a Teia dos Povos do Maranhão, o Centro de Defesa Ferreira de Sousa, a Comissão Ilha Ativa e o Movimento de Pescadores e Pescadoras. Vale destacar que, além das comunidades Macapá e Porto de Areia, também estão participando desta edição as comunidades do litoral Labino, Ilha Grande de Santa Isabel e Comunidade Boa Esperança – de Teresina.
Durante as falas, ficou evidente que lutar por território é também reafirmar o sentido de comunidade. “Se o problema não é individual, a solução é comunitária. É preciso a gente se reunir. Esse é o sentido da comunidade”, disse Sarah Fontenelle, integrante do Laborejo-UFMA e OcorreDiário. A professora e pesquisadora também acrescenta sobre a satisfação de poder articular todo o processo do círculo de saberes com a sua pesquisa, hoje realizada entre UFRJ e UFMA. “As pesquisas precisam pisar no chão da realidade e promover soluções reais para o nosso tempo”, afirma.

Entre as reflexões do dia, uma lembrança ecoou com força: para tecer qualquer luta, é preciso da espiritualidade — a que está em nós, em nossos corpos, e também a que produzimos juntos, que movimenta a vida e sustenta a luta.
O que é o Círculo de Saberes?
O Círculo de Saberes – Pensar e Agir em comunidado é uma criação da Plataforma de Comunicação Popular OcorreDiário. Trata-se de um processo de formação pedagógica a partir da educação popular que visa construir uma metodologia onde a comunicação possa ser estratégia no processo de organização e mobilização comunitária. Nasceu na pandemia com o objetivo de oferecer formação política reunindo saberes e conhecimentos comunitários para elaborar soluções para o nosso tempo.
Nesta terceira edição que está acontecendo na praia de Macapá tem o objetivo de realizar formação em comunicação para defesa dos territórios, tendo como matéria-prima a escuta das memórias e das histórias de vida. Cartografando as memórias, o propósito é, ao final, lançar o podcast “Círculo de Saberes” contando as histórias das comunidades presentes.
Tecendo Teia
Nesta etapa do Círculo também houve a participação da Teia dos Povos do Maranhão, com o intuito de fortalecer os laços entre Piauí e Maranhão e compartilhar estratégias e táticas de lutas em defesa do território. Quem fortaleceu esta luta levando o toque maranhense foram Meire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário – CIMI e Rosa Tremembé, do povo Tremembé da Raposa – MA.
Para Meire, articular e mobilizar comunidades a partir da comunicação popular é essencial para garantir que os povos continuem vivendo nos territórios onde nasceram, cultivando sua relação com a terra, a espiritualidade e o modo de vida tradicional. “Trabalhos como esse ajudam o povo a se manter mobilizado e organizado na defesa da vida e do território”, explicou.

A presença de Rosa Tremembé no território foi fundamental para lembrar que a costa litorânea guarda memórias que as fronteiras criadas pelo colonizador não destruiu. Para além dos limites entre os municípios as memórias se re-encontraram, gerando uma teia que trouxe a tona afetos e a certeza de que há existências que não foram silenciadas.
O Piauí é terra indígena
Na ocasião, Rosa lembra histórias da ancestralidade indígena no litoral do nordeste, contando que vem do Ceará, mas hoje se reencontrou com seus parentes na Raposa-MA, onde buscam demarcação do seu território. Relatou também sobre estratégias de andanças de seu povo. Houve um momento de comoção, quando as famílias locais acessaram suas memórias ancestrais indígenas.
Domingos Coutinho, conta que guarda sua cultura ancestral de pescar, fazer suas próprias ferramentas, plantar e colher. Assim, como sua irmã, Navegantes, que lembra da forma como sua mãe fazia café com o coco do quintal “isso é costume indígena”, lembra. Sua mãe, Conceição também lembrou de sua avó que desceu a Serra do Ceará até chegar ao maranhão e depois ao litoral do Piauí. Ao fim, lembramos que as histórias de vida e as memórias são os bens preciosos do território, parte de quem somos e do que projetamos para o futuro de bem viver.
Macapá e Porto de Areia denunciar violações de direitos enquanto comunidades tradicionais
As comunidades vizinhas, Macapá e Porto de Areia, denunciam as sucessivas tentativas de expulsam de suas terras sagradas e ancestrais por parte de empresários do turismo e de carcinicultura. O OcorreDiário já denunciou as ações em algumas reportagens.
Famílias no Porto de Areia estão acuadas entre muros de condomínios de luxo e, de outro lado, com fazenda de camarão. As famílias, que antes viviam de plantio de roça, extrativismo, pesca de peixes e caranguejos, agora veem suas possibilidades de existência minadas. Muitos já abandoram suas casas, mas ainda há resistência. Na praia de macapá, a pouco mais de um km dali, famílias também são ameaçadas por empreendimentos turísticos.
Com o círculo de saberes, no método da comunicação como escuta reparadora e profunda, busca-se narrar estas e outras histórias em defesa do território e do bem viver destas famílias. Em breve será lançado o podcast Círculo de Saberes, contando estas e outras histórias.
A expectativa é de que os saberes e conhecimentos possam continuar a circular e a mobilizar desejos, afetos e lutas, reunindo educação e comunicação popular para re-existência popular e comunitária.
Deixe um comentário