Press ESC to close

Sob suspeita: denúncias de interferência institucional e favorecimento marcam as eleições para reitoria da UESPI

Redação Ocorre Diário

Publicação de conteúdo eleitoral em perfil oficial e envolvimento de servidor com acesso ao sistema de votação levantam questionamentos sobre a lisura do pleito que definirá os rumos da universidade nos próximos quatro anos.

A Universidade Estadual do Piauí (UESPI) prepara-se para realizar, em 12 de novembro, a eleição para Reitoria e Vice-Reitoria que definirá o rumo da instituição pelos próximos quatro anos. O que deveria ser um momento de reafirmação democrática e de participação livre da comunidade acadêmica, entretanto, tem sido marcado por suspeitas de interferência política e denúncias de violações às regras eleitorais estabelecidas pelo próprio Conselho Universitário. As queixas, sustentadas por registros públicos e documentos oficiais, apontam para o favorecimento da Chapa 1, “Viva a UESPI!”, encabeçada pelo professor Paulo Henrique, o que tem colocado em xeque a lisura do processo.

Nos últimos dias, vieram a público evidências que reforçam essas suspeitas. Entre elas, destaca-se a divulgação de imagens que mostram um servidor técnico, identificado como responsável pelo suporte ao sistema eletrônico de votação, o Helios Voting, utilizando materiais de campanha da referida chapa. A situação é particularmente grave porque, de acordo com o Artigo 22 da Resolução CONSUN nº 002/2025, o apoio técnico à votação deve ser realizado por uma Comissão Técnica composta por servidores da área de Tecnologia da Informação, cuja função é garantir a integridade e o sigilo do voto, atuando de forma estritamente neutra e operacional. 

O envolvimento público de um desses servidores em atividade político-eleitoral fere diretamente o princípio da imparcialidade e lança dúvidas sobre a segurança e confiabilidade do processo de votação. Em qualquer eleição democrática, quem opera a tecnologia de apuração deve permanecer distante de qualquer campanha. Na UESPI, contudo, as fronteiras entre o técnico e o político parecem ter sido dissolvidas.

As denúncias se agravaram quando o perfil oficial da UESPI no Instagram publicou, em pleno período eleitoral, uma arte de campanha da Chapa 1, contendo número, slogan e imagem do candidato. A peça permaneceu disponível por tempo suficiente para ser amplamente visualizada e compartilhada pela comunidade acadêmica. Diante da repercussão negativa, a Assessoria de Comunicação da universidade divulgou uma nota pública reconhecendo a postagem, alegando tratar-se de um “equívoco” ocorrido em razão do uso simultâneo de contas pessoais e institucionais no mesmo dispositivo móvel. 

“O equívoco ocorreu em razão do uso simultâneo de diferentes contas institucionais e pessoais em um mesmo dispositivo móvel. Assim que identificado o erro, o conteúdo foi imediatamente removido. A ASCOM reforça que mantém absoluto compromisso com a imparcialidade e com o cumprimento das normas eleitorais previstas no edital que rege o processo”, afirmou a reitoria, em nota. A justificativa, no entanto, ão explica, por exemplo, como uma peça de campanha produzida fora da estrutura da universidade foi parar justamente no perfil institucional da UESPI, e exclusivamente em favor de uma única chapa.

De acordo com o Artigo 14, inciso III, da Resolução CONSUN nº 002/2025, é expressamente vedado o uso de recursos financeiros ou do patrimônio da universidade em campanhas eleitorais. A publicação de material eleitoral em um canal oficial da instituição, portanto, viola de forma direta e inequívoca essa norma. A correção do erro só ocorreu após ampla divulgação da denúncia, o que revela falhas na fiscalização preventiva e um ambiente permissivo quanto à quebra da neutralidade institucional. Para uma instituição pública, o dever de zelar pela isenção e pela confiança coletiva é inegociável; e quando esse princípio é corrompido, o dano à credibilidade é profundo.

Esses acontecimentos não surgem isoladamente. Ao contrário, integram um padrão de comunicação institucional que há meses tem projetado, direta ou indiretamente, figuras da Chapa 1 em eventos oficiais e materiais de divulgação da universidade, muitas vezes em agendas ao lado do governador do Estado. Essa recorrência cria a percepção de uma continuidade administrativa previamente definida, apresentando o atual projeto de gestão como inevitável, natural e desejável por toda a comunidade acadêmica. Ainda que o comparecimento de autoridades e docentes a eventos institucionais seja comum, a repetição dessas aparições em contextos eleitorais sinaliza um uso simbólico do aparato comunicacional da universidade em favor de uma candidatura específica. 

O Artigo 15, inciso XX, da Resolução CONSUN nº 002/2025 é claro ao determinar que a Comissão Eleitoral Central deve encaminhar ao Conselho Universitário todas as infrações e inobservâncias das normas, para que sejam tomadas as providências necessárias. Até o momento, porém, a Comissão não se manifestou publicamente sobre o episódio nem apresentou medidas corretivas, o que amplia a sensação de descontrole e favorecimento. Mas o caso tem gerado indginação nas redes sociais. Um vídeo compartilhado pela Professor Rodolpho Rodrigues, denunciando o caso no instagra, já teve mais de 12 mil visualizações.

Esta mensagem de erro é visível apenas para administradores do WordPress

Erro: nenhum feed encontrado.

Vá para a página de configurações do Instagram Feed para criar um feed.

O silêncio institucional diante de denúncias tão graves compromete o princípio da transparência e alimenta o descrédito do processo eleitoral. A Resolução CONSUN nº 003/2025, que retifica o regimento da eleição, reforça o dever de publicidade das decisões e ações da Comissão Eleitoral Central, justamente para garantir o acompanhamento público e a confiança da comunidade universitária. Ao não agir com celeridade e clareza, a Comissão enfraquece a própria legitimidade do processo que coordena. O resultado é um clima de desconfiança generalizada, em que parte expressiva da comunidade teme que o pleito esteja sendo conduzido sob tutela da administração vigente, que, em vez de árbitra neutra, atua como agente interessado na manutenção de seu próprio projeto político.

A soma desses fatores conduz a uma pergunta incômoda, mas inevitável: há, de fato, uma disputa na UESPI, ou apenas a formalização de uma escolha já determinada por quem controla os meios institucionais? Quando o mesmo grupo político detém acesso ao sistema de votação, à comunicação oficial e às agendas públicas, o princípio da igualdade de condições, elemento básico de qualquer democracia, deixa de existir. O Artigo 15, inciso XVII, da Resolução nº 002/2025 prevê o cancelamento do registro de candidatos que desrespeitem as normas, garantindo o contraditório. No entanto, nenhuma providência foi adotada até o momento, apesar da evidência de uso indevido do patrimônio institucional e da presença de servidores em campanha.

Às vésperas da votação, a universidade chega a uma encruzilhada. Ou reafirma sua autonomia, assegurando que cada voto seja livre e respeitando as regras que ela própria instituiu, ou carregará, pelos próximos anos, a marca de uma eleição comprometida por interferência institucional. Para uma universidade pública, não há dano maior que o descrédito de seus próprios processos democráticos. Sem confiança coletiva, a ideia de gestão participativa se transforma em mera retórica, e o voto, que deveria ser instrumento de futuro, converte-se em simples ritual legitimador de um poder que já escolheu seus sucessores. 

A comunidade acadêmica, docentes, técnicos e estudantes tem, portanto, o dever e o direito de exigir um processo justo, transparente e livre de manipulações. Que a UESPI seja governada pela vontade de sua gente, e não pela máquina que deveria servir à coletividade. Só assim o resultado do dia 12 poderá ser reconhecido como expressão legítima da democracia universitária, e não como a encenação de um jogo previamente decidido.

Comments (2)

Deixe um comentário para Maria Gonçalves Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Acessar o conteúdo