
Reportagem: Luan Matheus Santana, Tânia Martins, Maura Vitória, Raquel Paris e Sabrina Moraes | Edição: Sarah Fontenelle e Glenda Uchôa
Saímos de Teresina em uma das madrugadas de Abril, com o carro carregado e o silêncio quebrado apenas pelo motor e pelo canto tímido de alguns pássaros. Enquanto avançávamos pela estrada, o sol começava a se espreguiçar sobre uma paisagem que conhecemos muito bem: a transição entre os biomas da caatinga e do Cerrado. O céu limpo anunciava que o calor viria forte. Pela frente, quase 500 quilômetros até Uruçuí, no chamado coração do Cerrado piauiense. Um coração que, há exatos dez anos, passou a ser redesenhado por um projeto que mudou para sempre a região. Eles chamaram esse projeto de MATOPIBA.
No ano de 2015, o Governo Federal criou essa nomenclatura, que une as iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Uma região geográfica e político-econômica do Brasil, oficialmente delimitada com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento do agronegócio na região do Cerrado, com foco na expansão de uma nova fronteira agrícola, localizada entre esses estados.
Essa delimitação foi proposta pelo Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Na região, existem mais de 324 mil estabelecimentos agrícolas e cerca de 567 mil unidades rurais, de acordo com o último Censo Agrícola, realizado em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tudo isso, espalhados em 337 municípios dos quatro estados.
Seguindo os rastros dessa nova fronteira agrícola, entre os estados do Piauí e Maranhão, encontramos um cenário de destruição, ameaças, violências e violações de direitos básicos. Onde antes havia pequi, copaíba, aroeira e jacarandá, hoje se estende um vazio repetido: soja, milho, milheto; soja, milho, milheto; soja, milho, milheto. Uma repetição que, se a boca já cansa de falar, nossos olhos, enfadados de assistir, já não conseguem suportar.

Quilômetros e mais quilômetros de estradas com uma paisagem única: plantações de monoculturas nos solos onde antes era cerrado. Mais da metade dessa vegetação, inclusive, já desapareceu, de acordo com o Map Biomas. No lugar dela cresceu um deserto verde, que desaparece a cada nova colheita e ressurge a cada novo ciclo de plantio. Um deserto sem sombra, sem cheiro, sem canto de pássaros.
Foi atravessando esse cenário que seguimos viagem, passando por cidades e territórios no Piauí e no Maranhão, ouvindo histórias que insistem em sobreviver. Entre comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas, a presença do agronegócio se repete como uma força que invade, pressiona e transforma. Às vezes chega com grileiros, outras com empresas, fazendeiros ou projetos de energia. Chega como promessa de desenvolvimento, mas deixa marcas profundas: terras esgotadas, rios secando, corpos cansados e uma pergunta que permanece aberta no caminho.

MATOPIBA concentra 92% dos conflitos por terra e água no Piauí e 77% no Maranhão

Esse relato que você acabou de ler é de Raimunda Nonata. Uma mulher preta, de cabelos cacheados, estatura mediana e liderança do Quilombo Cocalinho, localizado na cidade de Parnarama, região do Médio Parnaíba, no leste do Maranhão. A fala de Nonata, ainda um pouco trêmula, reflete um medo que a persegue há alguns anos. No dia que entrevistamos Nonata, ela estava com sua neta no colo, sentada em uma cadeira no quintal da sua casa. Mas lá nem sempre foi um lugar seguro. Entre um choro e outro da neta, ela nos contou como é viver sob a mira invisível das ameaças.

“Eles [programa de proteção à defensores de direitos humanos] me levaram o ano passado, me tiraram daqui, passei o mês de dezembro fora, já voltei pra casa no mês de janeiro. Eles queriam me levar para uma cidade, mas ia ficar muito longe da minha família, aí eu vim pra mais perto. Mas eu voltei mesmo só no mês de junho. Mas as ameaças continuam. Os ameaçadores ameaçavam por conta da gente fazer denúncias sobre uso de agrotóxico, sobre desmatamento, essas coisas”, conta Nonata.
Aqui não vamos revelar os detalhes do procedimento que atendeu Nonato e garantiu sua segurança, nem o trajeto feito por ela. Mas quando uma mulher negra, quilombola, vive presa dentro da própria terra ou precisa sair escondida do seu território para proteger sua vida, é porque tem algo muito errado com o que a gente chama de desenvolvimento. Quando a violação de direitos se torna prática comum e a violência no campo uma estatística em constante ascensão, a gente percebe que o progresso não parece ter sido pensado para todos.
A ponta do iceberg
De acordo com o Ministério da Agricultura (Mapa), a produção de grãos no Matopiba aumentou 93% entre 2014 e 2024, passando de 18 milhões de toneladas para 35 milhões. Para daqui a dez anos, o relatório “Projeções do Agronegócio Brasil 2023/2024 a 2033/2034” aponta para um aumento de 37,1%, para 48 milhões de toneladas de grãos, com expansão da área plantada de 17%, para 11 milhões de hectares em 2032/33, nos quatro Estados. Mas a nova fronteira da produção de grãos não atraiu apenas investimentos, atraiu também muitos conflitos fundiários e violações de direitos. Um cenário que se reflete em números e revela que os conflitos são parte visível de uma problema que é bem maior.

Anualmente a Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulga um relatório de Conflitos no Campo no Brasil. Nós fizemos uma análise dos últimos 10 relatórios para entender como esses conflitos se movimentaram depois da criação do MATOPIBA e o resultado é alarmante. Em 2015, ano da criação do MATOPIBA, apenas 7% dos conflitos por terra e água no Piauí aconteceram nesta região. Dez anos depois, em 2024, esse percentual saltou para 92%, ou seja, hoje, nove a cada dez territórios em conflito no estado estão localizados no MATOPIBA.
No Maranhão, o cenário é semelhante. Em 2015 pouco mais da metade dos territórios em conflito no estado, 53%, estava na área de abrangência do MATOPIBA. Dez anos depois, esse percentual subiu para 77%. Na última década, o Maranhão registrou mais de 2.200 conflitos no campo. Foram quase 181 mil famílias envolvidas e cinquenta e quatro assassinatos. No Piauí, mais de 8 mil famílias foram atingidas, com 322 territórios em conflito. Foram registrados ainda 24 ameaças de morte e três tentativas de assassinato.
Tanque da Rodagem e as marcas que o tempo não apaga
No leste do Maranhão, às margens da rodovia MA-262 está a comunidade quilombola Tanque da Rodagem. Espremida entre plantações de soja, a comunidade resiste a fazendeiros e jagunços contratados que tentam expulsá-los de suas terras, uma resistência que não vem de hoje. São pelo menos 15 anos de conflitos, como lembra José Orlando, liderança quilombola da região.

Antes disso, os moradores viviam sob uma lógica marcada pela imposição de poder: mesmo sem garantias legais, muitos acabavam pagando ‘foro’ a pessoas que se diziam donas das terras. Um desses personagens era conhecido como Coronel Dozinho de Brito, que reivindicava a posse de uma vasta área, cerca de 1.500 fazendas.
Essa situação começou a mudar em 1982, quando, a partir de um acordo envolvendo o então prefeito, a área foi vendida, permitindo que os moradores realizassem o primeiro registro em cartório das terras onde vivem até hoje, afirmou José Orlando. Legalmente, o quilombo possui 43 anos. Entretanto, isso não foi suficiente para impedir as muitas invasões, violências e grilagens de suas terras.

Em 2009, o grupo Suzano Papel e Celulose adquiriu diversos hectares e passou a retirar famílias estabelecidas, promovendo um intenso processo de substituição da mata nativa por eucaliptos. Foi assim que surgiu o processo dos 38.
“Foi entre 2009 e 2010 que tudo isso começou. Eles passaram a se concentrar mais nessa área e tentaram retirar as famílias daqui do Tanque da Rodagem, do Baixão da Macaúba e do São João. Então o pessoal se reuniu e entrou com o processo contra a empresa. Esse processo é conhecido dentro das comunidades como processo de 39, porque eram 39 famílias que entraram na justiça. Esse processo foi andando, teve duas reintegrações de posse, mas não foram executadas”, conta José Orlando.
Em 2019 surgem mais dois personagens: Eliberto Luiz Stein, dono da Stein Telecom, e Silvano Oliveira, ambos empresários vindos do Paraná, que adquirem uma área dentro do território quilombola. O objetivo: plantio de monocultura de soja. Resultado: conflito por terra, ameaças e tentativa de retirar a comunidade.
Para isso, Eliberto Stein e Silvano Oliveira passaram a negociar a saída das famílias em troca da doação de meio hectare para cada família em uma área de chapada que, como explica Orlando, não oferece condições para os plantios. “E aí já botaram várias pessoas aqui dentro, encapuzadas, roupa preta. A gente conseguia notar um volume, uma que fosse arma. E sempre era: quando um descia, o outro subia. E, dali, as pessoas ficaram mais preocupadas. Em torno de 60 dias que tinha para desocupar, diminuiu para 30 dias”, explica a liderança.
Com o aumento da pressão, a presença constante de carros e motos passou a fazer parte da rotina da comunidade. Em menos de 30 dias, as famílias foram novamente convocadas a assinar documentos para desocupar a área o mais rápido possível. Como proposta, os empresários ofereciam um reassentamento: uma área de cerca de 100 hectares, mas localizada em região de chapada, com solo arenoso, onde praticamente não é possível produzir. “Não tem como fazer qualquer produção agrícola dentro da área. E o outro é brejo, local que não tinha como as pessoas produzirem alimentos lá. E, dentro desse período, as pessoas assinaram esse documento diante da pressão”, explica.
Em setembro de 2021, o conflito se acirrou. O território foi alvo de uma investida brutal coordenada por fazendeiros e supostos jagunços, que utilizavam tratores para derrubar cercas e a mata estava sendo posta abaixo pelo método do correntão. Eles destruíram roças de subsistência e devastaram a vegetação nativa sob o pretexto de uma reintegração de posse. Durante dias, a comunidade viveu um cenário de guerra, o que forçou as famílias a organizarem barreiras físicas e vigílias constantes para impedir o avanço das máquinas e proteger suas vidas e sua ancestralidade.

A audácia dos grupos armados chegou ao ponto de impedir fisicamente que representantes da Secretaria de Estado da Igualdade Racial (SEIR) e técnicos do Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (ITERMA) acessassem o território para prestar assistência. Esse bloqueio, feito sob a mira de ameaças e monitoramento ostensivo, demonstra que, nas frestas da fronteira agrícola, a lei da força muitas vezes tenta se sobrepor ao Estado, deixando quilombolas e indígenas em uma resistência solitária contra um sistema que avança sobre suas terras, suas águas e sua existência.
Apesar de algumas pessoas terem cedido às pressões, a maioria resistiu. Durante 60 dias, a comunidade ficou acampada para pressionar e denunciar a invasão de suas terras. A comunidade apresentou denúncias à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA), ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e fez diversas pressões ao poder judiciário. Todos esses conflitos ocorreram apenas no ano de 2021.
“De 2021 para cá, eles já chegaram aqui, roubaram a fiação da rede elétrica, já chegaram a tirar os postes de energia daqui de dentro. Do São João também a mesma coisa: lá não chegaram a tirar os postes, mas levaram os transformadores lá de dentro, roubaram os fios”, explica. Segundo José Orlando, na comunidade São João, a movimentação desses grupos era ainda mais frequente. Já em Tanque da Rodagem, a presença diminuiu depois que os moradores passaram a se organizar: sempre que havia movimentação suspeita, as pessoas se reuniam, registravam imagens e faziam boletins de ocorrência, o que ajudou a inibir parte das ações. Ainda assim, segundo ele, a origem dessas articulações continua difícil de identificar.
Resistência, memória e cotidiano na Comunidade São João
mesmo com tanta violência cercando suas vidas, esse é um povo que resiste com alegria. Dona Amparo é um espelho das mulheres que não abaixam a cabeça e lutam, sem deixar sua esperança ser apagada pela força dos tratores. É essa força, que se confunde com a alegria, que mantém o Cerrado em pé. Aos 68 anos, Dona Amparo já perdeu as contas de quantos anos passou na comunidade.
Lá, a vida sempre foi regida pelo tempo da roça, da capoeira de mandioca, do canto e da fé. Mas, quando os empresários do agronegócio bateram à sua porta querendo tirá-la de lá, foi com a palavra que ela respondeu. Disse que não poderia sair da terra porque ainda tinha muito coco para quebrar, uma vazante com feijão começando a nascer e uma capoeira de mandioca para cuidar.
“Aí ele disse: não, não tem problema nenhum. Você quebra o seu coco como puder. Quando você fizer essa mandioca, você vai lá no escritório para assinar. Ai eu disse: pois tá bom. Mas não fui. Eles continuaram vindo, aí uma vez, um deles veio aqui. Eu tava sozinha. Aí ele chegou e perguntou se eu já tinha resolvido. Eu disse: vocês pare de me afrontar. Minha idade não compete com isso aí não. Você tem que ver minha idade. E nunca mais ele pisou em minha porta”, afirmou Dona Amparo.

“Mulher baixinha e braba”, brincou Mayron Borges, do Fórum Carajás, definindo a postura de Dona Amparo. “Tem que ser real. Nunca mais ele veio. O Negócio aí acabou tudo, graças a Deus. Ele veio, a juíza veio, veio o INCRA, veio tudo, mas nunca mais me afrontaram”, afirmou Dona Amparo.
Entre retomadas e ameaças, a luta dos povos indígenas do Piauí
No Piauí, desde o ano de 2024 pelo menos 200 famílias indígenas Akroá-Gamela e Gueguê iniciaram um processo de retomada, em uma área de desmatamento, na cidade de Uruçuí. A retomada, intitulada Vão Seco e Toco Preto, é um movimento para reocupar uma área que consideram ancestral. Por lá, a resposta foi a mesma que deram às comunidades Cocalinho e Tanque da Rodagem: violência. Barracas queimadas na madrugada, cercas arrancadas, terra desmatada, ameaças por toda parte. “A gente tá nessa retomada aqui desde dia 13 de maio de 2024. A nossa situação aqui é um pouco complicada porque vêm acontecendo várias invasões, o pessoal chega aí, desmata, troca fogo, cerca lote”, explica Aurélio Borges, cacique do povo Gueguê do Sangue.
Não faltam comprovações da presença dos Akroá Gamella em Vão Seco e Toco Preto. Cacica Maria da Conceição, ou Cacica Dan, como prefere ser chamada, apresenta documentos que datam de 1958 e que confirmam a permanência de seu povo no território, mas, como ela mesma diz, a prova dessa existência é viva: ela está neles mesmo, em cada indígena da comunidade. Contra eles estão agentes do poder municipal, grileiros e corporações do agronegócio, como o grupo Tomazini, que está construindo um frigorífico com capacidade para abater cerca de 500 mil aves por dia no território reivindicado.

Os documentos da Cacica contestam registros mais recentes, de 2009, usados por para reivindicar a área. Segundo ela, a comunidade permanece no território porque reconhece seu direito ancestral e denuncia a falta de legitimidade das tentativas de expulsão. “Fizeram um documento da prefeitura de posse. A prefeitura é posseira de terra. 2009. E eu apresentei um documento de 1958 dos indígenas. Como é que ele é dono de terra? Por isso que nós não saímos daqui”, afirmou Cacica Dan.
Mais do que uma disputa por território, a retomada está ligada à preservação da cultura, da memória e da relação dessas comunidades com o Cerrado. Entre as principais reivindicações, os indígenas cobram o reconhecimento de seus direitos territoriais, a proteção do Cerrado e o fim da grilagem e da destruição ambiental. Também denunciam o descumprimento de acordos e a falta de políticas públicas que garantam condições dignas de vida. Para essas comunidades, a terra não é apenas um bem econômico, mas parte essencial de sua identidade, de sua história e do seu modo de vida.



Judicialização e aumento das ameaças: o escalonamento das ameaças no território dos Akroá Gamella se tornou pauta de diversos veículos de comunicação. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) publicou em seu site, em agosto de 2024, como a prefeitura de Uruçuí busca se distanciar da ação grileira, mas, na Justiça, age para retirar indígenas do território em processo de identificação.
“Eles já fizeram umas 10 liminares para tirar a gente daqui. Aí, a gente conseguiu derrubar. Depois deram outra, mas conseguimos derrubar agora a última. Está na segunda instância federal, em Brasília. E lá, uma juíza que pegou o processo julgou, e nós ganhamos. A Defensoria Pública da União pediu a intervenção de todas essas áreas dos Akroá Gamella para serem apropriadas. E mandou. Está lá”, afirmou Cacica Dan.
Aurélio Borges, cacique do povo Gueguê do Sangue, reforça o cenário de tensão e disputa. “A gente tá instalado nesse pequeno espaço, né, porque a gente não tem mais espaço lá pra cima do morro. O pessoal invadiu tudo e acabou que a gente ficou nesse beco. Como vocês podem ver, hoje a gente tem plantio de feijão, plantio de milho, como vocês viram lá na frente, temos criatório de galinha”, afirmou.

Aurélio Borges do povo Gueguê do Sangue e a Cacica Dan do povo Akroá Gamela, enfrentam juntos violências que ameaçam suas vidas e do seu povo. Os Gueguê do Sangue carregam em seu nome a memória da violência. “Sangue” é uma alusão a um massacre contra seus ancestrais. Pressionados territorialmente, os povos são atravessados pelo racismo e pela negligência do Estado. Sem acesso adequado à água, energia, saúde, educação e assistência social, a luta se torna ainda mais desafiadora. A falta de acesso à água potável é um dos principais desafios enfrentados pela comunidade.
Segundo o cacique Aurélio Borges, as famílias vivem em situação de extrema precariedade e precisam pagar R$150 por uma carrada de 2 mil litros de água, adquirida de um morador da região. Sem apoio do poder público municipal, do CRAS ou de outros órgãos, a comunidade segue desassistida. A escassez já impacta diretamente a sobrevivência no território: animais estão morrendo e muitas famílias não conseguem permanecer no local por longos períodos. Diante disso, a principal demanda hoje é a perfuração urgente de um poço, afirmou Aurélio Borges.
O peso das lágrimas e o silêncio
Entre a vontade de ir embora e a luta por um pedaço de terra para morar, Dona Cidália comprtilha sua historia. Uma mulher de baixa estatura, com oljhar cansado e passo miúdo, como quem carrega o peso de muitas histórias. Hoje, vive em uma casa de um único cômodo na retomada Gueguê e Akroá Gamela, em Vão Seco e Toco Preto, na cidade de Uruçuí, no sul do Piauí.
Em muitos momentos, as lágrimas não se seguravam mais nos olhos de Dona Cidália. Sentada em uma rede de corda gasta, que rangia suave, amarrada em estacas de madeira que seguram um teto de palha… e de esperança. Entre um balanço e outro, fomos entendendo suas lágrimas. Ela e o marido são uma entre quase duzentas famílias que decidiram voltar para o chão que sempre lhes pertenceu. Eles estão plantando de novo: raízes, sonhos e nome indígena. Mas, por lá, falta quase tudo.
Não tem energia elétrica. Não tem água encanada. Só o calor seco que racha a terra e a paciência. As casas são improvisadas, parecem resistir ao tempo só porque foram erguidas com fé. A mesma fé daqueles que sabem que não estão começando do zero. Estão recomeçando de um ponto que foi interrompido à força, lá atrás.
Dona Cidália é prova viva de uma mito criado para destruir o Cerrado. Nos anos 1980 e 1990, políticos e empresários repetiam que o Cerrado era vazio. Que era natural transformá-lo em soja, milho e milheto. Que ali não havia gente, história, cultura. Um mito conveniente que, até hoje, sustenta a grilagem e a destruição. Mas os dados, os mapas e, mais do que tudo, as histórias vivas e presentes desmentem essa farsa. O Cerrado nunca esteve vazio de gente, mas hoje corre o risco de ser soterrado sob o peso de tratores e promessas vazias… e desaparecer.
Resistir, um verbo de risco

Quem conta essa história é Salvador Rodrigues. Ele vive ali perto de Uruçuí, no município de Baixa Grande do Ribeiro, na comunidade indígena Prata, do povo Akroá Gamela. Com uma mira invisível (e às vezes visível) apontada constantemente para o próprio corpo, seu Salvador relata o cenário de constantes conflitos vividos em sua comunidade. Nossa intenção era seguir até a comunidade Prata, para conversar pessoalmente com seu Salvador e outras lideranças da comunidade, mas fomos alertados sobre duas coisas: primeiro, os riscos com a estrada, porque o acesso só era feito por veículos grandes, de tração. O outro, era por conta da nossa segurança. “O pessoal pediu que a gente não encostasse lá não, porque é muito, pra todo canto que a gente se encoste tem dois, três, quatro pistoleiros”, alertou Salvador, por telefone.
Seja nas comunidades quilombolas Tanque da Rodagem e Cocalinho, ou nos territórios indígenas Akroá Gamela e Gueguê, o nome Matopiba nunca chegou como promessa. Chegou como cerca, como trator. como documento assinado sem consulta. Chegou com barulho de máquina rompendo a terra e silenciando as vozes.

Nesses territórios, o tempo passou ao contrário. A cada ano, o medo avançou no lugar da segurança. A água está desaparecendo. O ar mudou. O chão, que antes dava vida, hoje parece mais próximo da morte. O discurso, que era de desenvolvimento e progresso, trouxe na prática a intensificação das violações: grilagem de terras, expulsão de famílias, pulverização de agrotóxicos, repressão violenta contra lideranças.

Em cinco anos, Piauí e Maranhão mais que dobraram o desmatamento no MATOPIBA
A violência no campo, em especial contra comunidades indígenas e quilombolas, têm uma relação direta com o desmatamento na região, que também está aumentando. Em 2024, o Matopiba concentrou 75% de todo o desmatamento do Cerrado. Quase 520 mil hectares de vegetação nativa foram destruídos. O Piauí liderou em áreas desmatadas associadas a financiamentos públicos. A engrenagem do agronegócio gira com óleo, sangue e apoio do Estado.

Esse é o desenho de um mapa onde a riqueza é medida pelo silenciamento das vozes. E onde quem denuncia, vira alvo. De 2019 a 2024, o desmatamento na área do Piauí que integra a nova fronteira agrícola cresceu 180,94%. No Maranhão, a expansão da destruição foi semelhante: mais de 127,83% de aumento. O Maranhão, aliás, é o estado líder no ranking nacional do desmatamento. No ano passado, foram mais de 218 mil hectares de áreas desmatadas, uma média de 598 hectares a cada dia no estado.
Isso quer dizer, no ano passado, só o estado do Maranhão destruiu, por dia, uma área superior à todos os 730 estádios de futebol, juntos. É como se a cada hora, 35 estádios fossem destruídos. O mais grave é que 95% de toda essa destruição está concentrada em apenas um bioma: no cerrado. Portanto, na área de abrangência do Matopiba.
Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia e Pará, juntos, compõem o grupo das cinco unidades da federação responsáveis por 65% da área desmatada do Brasil em 2024. A partir dos anos 2000 as coberturas vegetais primárias e secundárias, que são florestas e vegetação nativa, começam a reduzir de tamanho na área que compreende o MATOPIBA. Em seu lugar, começa a aparecer os pastos e plantios de monoculturas. Esse crescimento, tanto no Piauí quanto no Maranhão, ganha força a partir de 2015. E não é por consciência.

O Maranhão foi o estado do MATOPIBA com o maior aumento de desmatamento em 2023, liderando o ranking nacional com 331.225 hectares de área desmatada, um crescimento de 95,1% em relação a 2022. É a região com maior desmatamento no Brasil. Naquele ano (2023), o Piauí apresentou redução no desmatamento, uma exceção, mas que também não durou muito.
Em 2024, o Matopiba concentrou 75% de todo o desmatamento do Cerrado. Quase 520 mil hectares de vegetação nativa foram destruídos. O Piauí liderou em áreas desmatadas associadas a financiamentos públicos. A engrenagem do agronegócio gira com óleo, sangue e apoio do Estado.
Esses números, produzidos a partir da base de dados do Map Biomas, têm cheiro de poeira e gosto de água que secou. Eles refletem as muitas casas invadidas pela poeira, as nascentes de rios soterrados, as lavouras que não nascem mais. Enquanto esses estados batem recordes de produção de grãos, as lavouras dos territórios quilombolas e indígenas não brotam mais.
Do desmatamento aos conflitos
A lavoura de seu Salvador Rodrigues, liderança do povo Akroá Gamella, na Comunidade Prata, localizada nas proximidades da Estação Ecológica de Uruçuí-Una, no município de Santa Filomena, no sudoeste do Piauí, carrega memórias de um tempo em que não havia presença de pessoas não-indígenas no território. Ali, viviam da roça, da caça e da pesca. As redes e roupas eram tecidas pelas mulheres, e carros não chegavam à comunidade.
Décadas depois, seu Salvador e seus parentes vivem em meio a um fogo cruzado, que coloca em risco suas vidas e toda a biodiversidade do território. A floresta que seus ancestrais preservaram e viram prosperar vem sendo sistematicamente derrubada pelo avanço do agronegócio e pela ação de grileiros, que atuam na venda ilegal de terras.
Segundo o Plano de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais da Estação Ecológica de Uruçuí-Una, as áreas ao sul e ao norte da unidade despontam como novas fronteiras agrícolas, com crescente produção de soja, financiada pela BUNGE Alimentos S.A., multinacional instalada na região para armazenar e processar a produção. Há também grandes proprietários voltados à criação de gado e à produção de caju. Tudo isso significa, na prática, mais floresta no chão.

Mas a pressão sobre o território não vem apenas de empresas e agentes ilícitos. A própria Estação Ecológica de Uruçuí-Una, criada em 1981 e que abrange os municípios de Bom Jesus, Santa Filomena e Baixa Grande do Ribeiro, é também exemplo de uma política de conservação que desrespeita os direitos originários das comunidades indígenas que habitam a área. O governo brasileiro nunca regulamentou a estação, não elaborou plano de manejo e tampouco indenizou ou reassentou as famílias, como previa o decreto de criação. Nesse vazio institucional, grileiros seguem avançando.
Em julho deste ano, uma decisão judicial autorizou a produção agrícola nas fazendas da empresa Conesul – Colonizadora dos Cerrados Sul Piauiense LTDA. O próprio nome da empresa remete a uma lógica histórica de ocupação: tomar o território, sem considerar os povos que nele vivem. As áreas estão localizadas dentro da Estação Ecológica de Uruçuí-Una.
A medida permite o avanço da regularização fundiária e viabiliza um projeto de manejo considerado “sustentável”, que prevê a destinação de 75 mil hectares para uso produtivo e outros 30 mil hectares como reserva legal, incluindo investimentos em preparo do solo, plantio, irrigação e beneficiamento de sementes.
No entanto, a Estação Ecológica de Uruçuí-Una é classificada como unidade de proteção integral. Isso significa que apenas atividades como pesquisa científica, educação ambiental e turismo ecológico são permitidas. A habitação, a agricultura e o extrativismo são proibidos ou fortemente restritos, o que aprofunda os conflitos entre órgãos federais e as populações que ocupam o território há gerações.

A luta coletiva dessas e de muitas outras organizações segue em curso e, em muitos casos, tem custado a própria vida nos territórios.
O agronegócio como agente violador: “não há outro”
No Piauí, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) atua diretamente em 17 territórios, todos marcados por conflitos relacionados à terra e à água. Altamiram Miranda, uma das principais lideranças no estado, relata que essa luta já teve diferentes nomes ao longo do tempo, mas sempre manteve o mesmo objetivo: a defesa do território.
Até meados de 2007 e 2008, os conflitos eram compreendidos como disputas fundiárias pontuais, no âmbito da “luta pela terra”. A região nem sequer era reconhecida pelo bioma Cerrado, falava-se apenas em “chapada”. Com o avanço das chamadas “planistas”, grandes projetos agrícolas nas áreas elevadas, as comunidades começaram a perceber mudanças profundas: perderam acesso às chapadas, fundamentais para práticas culturais e extrativistas, como a coleta de palha e do coco catolé.
A partir desse período, os conflitos se intensificam. Comunidades passam a procurar com mais frequência a CPT, que, devido à sua presença histórica ligada à igreja e às dioceses, consegue atuar mais diretamente na região sul do estado, apesar das grandes distâncias e dificuldades de acesso. Nesse contexto, surge a figura dos “projeteiros”, termo usado pelas lideranças para se referir a grandes fazendeiros e empresários do agronegócio. O nome faz alusão aos grandes projetos de monocultura implantados na região, responsáveis por impactar profundamente os modos de vida das comunidades tradicionais.

Segundo Altamiram, todos os conflitos atuais estão diretamente relacionados ao agronegócio e, por consequência, ao desmatamento. “Não tem outro violador”, afirma. Levantamentos realizados pela própria CPT indicam que, mesmo em regiões com potencial de mineração, é o agronegócio o principal agente de violação. Os relatos são recorrentes e graves. Na comunidade indígena Vão do Vico, em Santa Filomena, casas foram derrubadas e queimadas, deixando famílias desabrigadas. Em territórios como Carcará e Angelim, comunidades enfrentam ameaças de expulsão para dar lugar à expansão da soja.
“Se você vai para a Barra da Lagoa, a situação também é grave. Há dois, três grupos de grileiros disputando a área. Brigando entre si pela terra. Há regiões como o Chupé 1 e o Chupé 2 (este último, em Santa Filomena) onde a comunidade não pode nem acessar a estrada à noite, porque jagunços atiram. Eles matam os animais da comunidade, prendem os animais, e os moradores não conseguem mais acessar o que é deles. Estamos tentando ver se conseguimos libertar esses animais. Eles fazem de tudo. Inclusive, conseguem levar a polícia até a comunidade para mostrar que estão respaldados, como se tivessem direito sobre a área. Há casos de policiais corruptos envolvidos nisso”, afirma Altamiram.
Na comunidade Matas, também em Santa Filomena, mineradoras de calcário operam dentro do território, mesmo com restrições legais, reforçando o vínculo entre exploração mineral e expansão do agronegócio. Altamiram resume o cenário: em toda a região entre os rios Gurguéia e Parnaíba, no sul do Piauí, praticamente todas as comunidades estão sendo impactadas pelo avanço do agronegócio.
“Hoje eu não posso mais sair a qualquer hora que quero. Não posso andar sozinho. Estou ameaçado de morte. E, mais recentemente, a situação ficou ainda mais tensa por conta de algumas prisões. Muitos passaram a dizer que fomos nós os responsáveis, e há fazendeiros que já mandaram recados, deixando claro o clima de ameaça. Então, quando eu saio de casa, eu me despeço de todo mundo, como se não fosse voltar. Porque é complicado”, conta.

Com rios contaminados por veneno, 8 mil famílias vivem em conflito por água no MATOPIBA
Do alto, aviões cruzam o céu do Cerrado diariamente, despejando litros e mais litros de agrotóxicos sobre a terra. O veneno escorre e alcança os rios, os riachos, as nascentes. Pelo caminho, a vida vai sendo contaminada: do solo ao alimento, da água ao corpo. No berço das águas do Brasil, estão matando os nossos rios. E quando um rio morre, não é só a natureza que perde, somos nós que vamos junto com ele.
Enquanto a produção agrícola avança para encher silos e navios, são as comunidades tradicionais que pagam o preço. “A gente nasceu e se criou na Barra da Lagoa, vivendo no meio da natureza, colhendo os frutos do cerrado, fazendo as plantações nas roças… e vivia em harmonia e em paz na nossa comunidade. Até que, de 2015 pra cá, as coisas começaram a se agravar”, afirma Mara Alves Pessoa, morada da comunidade Barra da Lagoa, município de Santa Filomena. Ela é uma das lideranças do território e integrante do Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Piauí.
A comunidade Barra da Lagoa é uma entre as mais de 8 mil famílias atingidas pelos 68 conflitos por água em curso no MATOPIBA, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). São rios contaminados, aquíferos ameaçados, cemitérios de agrotóxicos abertos no coração do Cerrado. É que essa região, além de ter muita terra boa para plantar, tem muita água, em cima e embaixo do chão.

São mananciais fundamentais para oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras. Além disso, de acordo com o relatório “Por Dentro do MATOPIBA”, da ONG WWF Brasil, todos os afluentes meridionais do Amazonas, com exceção do Juruá e Purus, nascem no Cerrado, assim como vários rios do Maranhão e Piauí.
E foi no meio do Cerrado piauiense, nas delimitações do município de Santa Filomena, que encontramos a comunidade ribeirinha e brejeira Barra da Lagoa. Ela é a única comunidade listada pela Comissão Pastoral da Terra como conflito por água no estado do Piauí em 2024. A comunidade tradicional, onde vivem 12 famílias, está ameaçada pelo agronegócio, em especial pelas plantações de soja, milho e milheto.
O estudo “Vivendo em Territórios Contaminados: um dossiê sobre os agrotóxicos nas águas do Cerrado”, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2023, retrata esse cenário preocupante. Ele é fruto de um trabalho conjunto da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, CPT e o Tribunal Permanente dos Povos e traz uma análise minuciosa das águas do Cerrado, incluindo a Barra da Lagoa.

Mara Pessoa é de uma família de 12 irmãos e faz parte da quarta geração a habitar o território. Ela e seu pai, o Sr. Geraldo, estão à frente da luta pela permanência na Barra da Lagoa e, a pedido dela, não iremos citar os nomes dos violadores, os empresários do agronegócio e grileiros de terra que têm ameaçado suas vidas. Ela conta que os grileiros e fazendas de monocultura começaram a aparecer em 2015 e, de lá pra cá, têm gerado inúmeros conflitos.
“A nossa comunidade sofre algumas violações, como grilagem de terra, sobreposições, reintegrações de posse, desmatamentos, intimidações, a privação de direito de ir e vir, a contaminação das águas e das plantações, milícias e ameaças. Essas são algumas das principais violações de direito que nós temos sofrido”, afirmou Mara.

Contaminação da água e impactos na vida
As violações, como relata Mara, são muitas. Mas é nas águas que o problema parece ganhar uma outra dimensão. Segundo o dossiê “Vivendo em Territórios Contaminados”, o Riozinho, o Brejo da Onça e o Brejo da Lagoa, de onde a comunidade utilizava água para beber, lavar roupas e cozinhar, foram contaminados por quatro tipos diferentes de agrotóxicos.
Antes da pesquisa, o que havia era uma desconfiança. “Meu pai começou a ficar muito desconfiado, achando que estava bebendo veneno”, conta Mara. Isso porque as fazendas ficam nas regiões planas e mais elevadas, enquanto a comunidade está nos chamados baixões. Assim, quando chove, os resíduos do veneno utilizado na plantação escorrem para os brejos e para o riozinho. Além disso, a pulverização aérea espalha veneno deliberadamente sobre as casas e roças.
“Quando nossa comunidade foi selecionada para essa pesquisa foram feitas duas coletas. Em todas as amostras de água que pegaram na comunidade, todas deram veneno, mostraram que nossas águas estavam contaminadas e tinham agrotóxicos, o que confirmava a nossa desconfiança. Mas, além de tudo isso, todo esse medo de beber água, de estar consumindo água envenenada, também vêm as questões que prejudicam a comunidade nas plantações, que chega a certo ponto de, às vezes, nem colher o que planta”, afirmou a liderança.

Desde 2019, a comunidade passou a beber, cozinhar e tomar banho com a água de um poço. Essas medidas adotadas diante das suspeitas, agora confirmadas, da contaminação dos brejos e do rio. Ainda assim, a pulverização de agrotóxicos continua a prejudicar a saúde das famílias e, mesmo com a comprovação pelos estudos da Fiocruz e a apresentação do dossiê, nenhum órgão de saúde ou de meio ambiente municipal, estadual ou federal apresentou medidas para solucionar a situação da comunidade.
“Esse fazendeiro que chegou perto da gente, quando ele usava o veneno lá, o cheiro vinha forte para a nossa comunidade, a gente sentia. E aquilo ali prejudicava não só a nossa saúde, mas também as nossas plantações. Mesmo a gente procurando a Secretaria de Saúde, mesmo a gente denunciando que nossas águas estavam contaminadas, mas o Estado não fez nada até hoje, nenhum exame, nem nada. Mas a gente vê a diferença. Pessoas sentindo problemas como dor de cabeça, alergias na pele. Então, a gente não pode dizer que é porque não foi comprovado”, afirmou Mara.
Do escoamento à expansão dos impactos
As consequências da criação do MATOPIBA não ficaram restritas às suas fronteiras. Toda essa produção precisa ser escoada e, por onde passa, deixa rastros de violação. Seguindo o percurso do escoamento da soja pela Ferrovia Norte-Sul, continuamos nossa viagem até São Luís, capital do Maranhão, chegando à ilha de Tauá Mirim.
A comunidade tradicional do Taim, que luta, junto a outras 11 comunidades, para ser reconhecida como Reserva Extrativista e, assim, se defender das violações que ameaçam o seu território é abundante em águas. As comunidades quilombolas, ribeirinhas e de pescadores convivem numa região de mar, mangues e rios.
Alberto Cantanillha, o Seu Beto, como é mais conhecido, tem 63 anos e é uma das principais lideranças da comunidade. “Aqui em São Luís, o MATOPIBA tem várias frentes de impacto. Uma delas é o armazenamento dos adubos químicos. Quando você passa ali na Vila Maranhão, você vê montanhas de adubos químicos, e eles já mataram praticamente os brejos todos no entorno da Vila Maranhão. Só a lavagem das lonas, quando chove, já causou a morte dos nossos brejos, que é onde ainda se tirava a juçara ou açaí, buriti”, afirmou Seu Beto.

A soja produzida no Maranhão é escoada principalmente pelo Porto do Itaqui, cerca de 16 km da comunidade do Seu Beto. Os grandes portos instalados na região afetaram diretamente o ecossistema, e a vida já não é como antes. A qualidade da água, a grande circulação de navios e a chegada de espécies invasoras modificam o comportamento dos peixes, o que dificulta a pesca, uma das principais fontes de renda e alimentação das comunidades de Tauá Mirim.
Poluição, abandono e perda de modos de vida
Na avaliação de Seu Beto, a poluição tem provocado mudanças visíveis e preocupantes no ecossistema marinho da região. Ele relata que episódios de mortandade de peixes têm se tornado frequentes, especialmente entre as sardinhas, que “andam mais na superfície” e acabam sendo encontradas mortas na praia, após a maré baixar.
Segundo ele, as explicações dadas são superficiais: “dizem só que ela desorientou, mas não explicam por quê, ninguém quer assumir”, disse. Outro fator apontado é a água de lastro dos navios que chegam para carregar minério e grãos: sem carga na vinda, eles transportam água nos porões, trazendo junto organismos de outros lugares. “Essa água vem com outros organismos pra cá”, explica, destacando o surgimento de espécies invasoras, como um camarão de grande porte que, segundo ele, já se mostrou predador de espécies nativas. O resultado, diz, é a perda progressiva dos recursos pesqueiros: “isso está acabando com o resto da fauna aquática por onde a gente pescava”, afirmou Seu Beto.

A insegurança da propriedade da terra, somada à agressividade dos interesses do agronegócio e à negligência do Estado na defesa dos direitos desses povos, tem provocado um grande fluxo de abandono dos territórios. Além do medo da violência, a degradação dos meios de sobrevivência e a contaminação das águas têm tornado insustentável a vida no campo. Nessa mudança de território, perdem-se costumes, saberes e modos de vida tradicionais.
A fauna e a flora originárias vão se extinguindo, e o meio ambiente sofre, vai perdendo partes essenciais do seu corpo, deixando espaço somente para esse coração sangrento, a última fronteira agrícola do Brasil: o MATOPIBA.
Notas e respostas
O Ocorre Diário procurou todas as empresas citadas nesta reportagem, assim como os órgãos públicos municipais, estaduais e federais. Entre as empresas do agronegócio, apenas a Bunge respondeu. A multinacional afirmou que não possui nem arrenda terras para a produção de soja, realizando compras apenas de produtores que passam por processos de verificação socioambiental antes de cada negociação. A empresa declarou seguir a legislação brasileira, respeitar áreas protegidas e territórios indígenas e quilombolas, além de cumprir políticas internas de sustentabilidade e direitos humanos.
Em nota, a companhia informou que passou a adotar, neste ano, uma Política Global de Não Desmatamento, com rastreamento e monitoramento por satélite de mais de 46 mil fazendas na América do Sul. No Cerrado brasileiro (incluindo Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia e Mato Grosso) a empresa afirma ter atingido 100% de rastreabilidade nas compras diretas e indiretas de soja.
No entanto, é importante destacar que a Bunge é uma das empresas citadas por povos Akroá Gamella como agente presente, há décadas, no contexto de desmatamento do Cerrado.
Sobre a situação fundiária dos povos Gamella e Guguê, foram procurados a Prefeitura de Uruçuí, o INTERPI – Instituto de Terras do Piauí e o INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. A Prefeitura e o INTERPI não responderam aos questionamentos.
O INCRA informou que não é o órgão competente para regularizar territórios indígenas em terras do Estado do Piauí. Segundo o instituto, caso seja comprovado que as terras são particulares, cabe à FUNAI conduzir o processo de regularização. No caso específico do território Akroá Gamella, o órgão afirmou que só teria competência para titulação se a terra fosse de propriedade da União.
Um dos conflitos apresentados neste episódio ocorre dentro de uma unidade de conservação federal: a Estação Ecológica de Uruçuí-Una. Sobre isso, também foi procurado o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão da área.
Em nota, o ICMBio afirmou que a unidade é destinada à pesquisa científica e não permite ocupação humana. No entanto, reconhece que, dentro de seus limites, encontra-se a comunidade Prata, habitada por indígenas Akroá Gamella desde sua fundação.
O instituto declarou ainda que reconhece os direitos dos povos originários e vem adotando medidas para melhorar as condições de vida da comunidade, como a instalação de placas solares para fornecimento de energia, manutenção de estradas e autorização para construção de uma escola pela Prefeitura de Baixa Grande do Ribeiro (PI).
Para formalizar a presença da comunidade, o ICMBio e a FUNAI estão organizando reuniões, com participação do Ministério Público, para elaboração de um termo de compromisso que regulamente a situação.
Sobre a presença de empresas do agronegócio dentro da Estação Ecológica de Uruçuí-Una, o ICMBio afirmou que não autoriza atividades econômicas na área, por se tratar de uma unidade de proteção integral. Qualquer uso sem autorização está sujeito a sanções, como multas e embargos. Ainda assim, o instituto confirmou a existência de pedidos de reconhecimento de posse dentro da unidade. Nesses casos, áreas que apresentarem documentação legal poderão passar por processos de desapropriação, uma vez que a criação da unidade se deu por decreto presidencial.
A FUNAI também foi ouvida pela reportagem. Atualmente, o órgão enfrenta limitações estruturais no Piauí. Em 2017, durante o governo de Michel Temer, a unidade presencial da fundação no estado foi extinta, tornando o Piauí a única unidade da federação sem atuação presencial do órgão. Hoje, os técnicos responsáveis atuam a partir de Fortaleza, no Ceará.
Renata Catarina, indigenista especializada da FUNAI, destacou o cenário complexo de violações de direitos enfrentado pelos povos indígenas no estado, especialmente diante dos conflitos sociais e territoriais.
Outro fator agravante é que grande parte dos empreendimentos chega à região sem a realização do chamado estudo de componente indígena — um documento técnico exigido no processo de licenciamento ambiental para avaliar impactos sociais, culturais, econômicos e ambientais sobre os povos indígenas. Esse estudo integra o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e é fundamental para garantir a proteção desses territórios.

Fronteira que sangra, resiste e permanece
Dez anos após a institucionalização do MATOPIBA como fronteira agrícola, o que se revela não é apenas o avanço de um modelo produtivo, mas a consolidação de um território em disputa, onde o crescimento econômico convive com a intensificação de conflitos, o desmatamento e a violação de direitos. Em uma região que concentra milhões de hectares e abriga povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, o chamado “desenvolvimento” tem operado, muitas vezes, como mecanismo de exclusão e apagamento.
Ainda assim, em meio à pressão constante, esses territórios seguem vivos. A permanência das comunidades, a defesa da terra e a continuidade dos modos de vida tradicionais revelam que o MATOPIBA não é apenas uma fronteira do agronegócio, é também uma fronteira de resistência. Entre a expansão da soja e a luta pela sobrevivência, o que está em jogo não é só a terra, mas o direito de existir.

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