Rasguem seus manuais de jornalismo

Utopia, para impulsionar nossa caminhada. Indignação, para enxergar as frias estatísticas do sofrimento humano, a iniquidade e as desigualdades e, assim, convertê-la em vontade de mudança. Alegria, pois também reivindicamos o direito à festa. Autocrítica, como forma de olhar pra si e enxergar em nós as contradições que nos impedem de seguir nossos princípios. Compromisso, para regar todos os dias, de sonho, música, poesia e esperança, os princípios que nos regem. Esperança, como verbo que nos impulsiona em todas as direções, olhando para frente e também, em movimento de Sankofa, olhando para trás. Coerência, para nos mantermos atentos e firmes em nosso propósito. Confiança, para andarmos sempre de mãos dadas. Solidariedade, entre nós e com os outros, para exercer na prática o projeto de sociedade que acreditamos e buscamos construir.
A objetividade jornalística vem sendo, desde o primeiro curso de jornalismo do Brasil, aberto ainda na década de 1940, tratada e ensinada como um paradigma da profissão. Intocada, imutável, inquestionável. Para nós, NÃO! Negamos a objetividade jornalística com certeza de que essa decisão amplia nossas percepções e potências criativas, na medida em se posiciona com uma postura honesta e verdadeira diante de sua audiência. Nosso jornalismo tem um lado, como também tem as grandes e poderosas empresas de jornalismo convencional. A diferença é que não negamos!
Para nós, como nos ensinou nossa mestra e ancestral Maria Sueli Rodrigues, a vida não é uma estrada em linha reta. Por isso, aqui não apresentamos a vocês uma Linha Editorial, mas uma costura, tecida por muitas mãos e regada a muitos sonhos. São apontamentos do jornalismo que a PLATAFORMA OCORRE DIÁRIO ousa sonhar-fazer, no corre diário da vida.

| Costurando outros modos de fazer jornalismo |
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| Direito de dizer a nossa palavra: nossa comunicação está calcada no que Paulo Freire chama de ação cultural para a liberdade, compreendendo que nossa tarefa é também provocar rupturas no ordenamento capitalista. Esta é uma condição inadiável e inegociável para que possamos restaurar o direito de dizer nossa palavra. Portanto, está no que-fazer do comunicador e comunicadora popular derrubar as matrizes que sustentam a lógica do desenvolvimento (destrói existências em nome do progresso) e sua matriz colonial. Rebuliço da linguagem: o modo de dizer a nossa palavra tem que ter a nossa cara, a estética. Buscamos, em Cremilda Medina (2003), a nossa inspiração, pois partimos da poética da interpretação e da inteligência sensível: pensar – analisar – agir. Por isso, é uma comunicação cultural, literária, reencantadora, cósmica, transcendental. Assim podemos trabalhar muitas vozes, que se expressam de muitos jeitos, desde vários locais de fala. O formato é não ter formato padrão, mas sim vários formatos possíveis. Método colaborativo de produção: partimos na horizontalidade e circularidade com método de trabalho. Acreditamos que um texto (escrito, falado, cantado, dançado), antes de publicado, precisa circular por diferentes mãos, olhos, ouvidos, narizes… é preciso sentir o texto na sua complexidade para que suas potências sejam libertadas. Um movimento que nos ajuda a ampliar nossas análises, ao mesmo tempo que apresenta correções e ajustes por fora de uma lógica punitivista. O tempo presente: falamos de um aprisionamento do tempo presente, esse tempo de ausências que nos distancia da circularidade da Terra, pautado na simultaneidade e instantaneidade nas quais o jornalismo se encontra hoje, preso ao conceito de periodicidade. Portanto, nos desafiamos a pôr no lugar as nossas temporalidades orgânicas de um presente não fugaz, mas como o nome diz “presente”, que encontra raízes e se conecta aos que-fazeres do nosso povo. Subjetividade e afeto: “É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir” (KRENAK, 2019). Então, fazer este tipo de jornalismo-experiência é não deixar que escapem nossas subjetividades e nem deixar que elas sejam alimento na mesa do mercado capitalista. É, também, pela defesa de que vivam muitas subjetividades em diferentes Bem Víveres. Escuta sensível: esse é um elemento suleador da nossa linguagem, ouvindo mais que falando, nos perguntamos antes o que cada pessoa pretende dizer e como pretende fazer. Isso, por si só, muda o modo de dizer as coisas. Por isso, é preciso ter a escuta como a principal pilastra para uma metodologia participativa. Esta metodologia deve agir como reparadora de anos de opressões dos sujeitos que tiveram negado o direito de dizer a sua palavra. Como disse Krenak, é preciso memória para não sucumbir à loucura. Fazer coletivo: não caminhamos sozinhos, não escrevemos sozinhos, voamos em bando. Enquanto comunicadores que agem diante do mundo, talvez seja essa nossa tarefa mais importante, a de pensar uma comunicação que conecte as pessoas, que fortaleça os laços, que se faça desde a pluralidade dos modos de vidas e de afetos. Partindo do princípio de uma comunicação coletiva, colaborativa e participativa, convidamos a traduzir o mundo com muitas mãos, muitas mentes e muitas linguagens. Estética insurgente: não podemos e nem devemos deixar de dizer a nossa palavra pela ausência de certas tecnologias, pela ausência de “estéticas apropriadas”. Pelo contrário, refazemos os caminhos tecnológicos com estéticas próprias e possíveis. Não temos medo da estética do feio (Vicente de Paula). Também, não temos medo de nos apropriar das técnicas e tecnologias que estão ao nosso alcance, mesmo que pareçamos estar em outro tempo. Re-envolvimento:para Maria Sueli Rodrigues, a lógica contemporânea do DESENVOLVIMENTO é a lógica da separação, do distanciamento, do deixar de (des) envolver. O caminho é parar e voltar. Insurgir novas formas de pensar a comunicação e o jornalismo é uma forma de re-envolver os povos em um projeto social de fato coletivo, partindo de um outro imaginário, capaz de evidenciar a pluralidade de vidas e culturas que o projeto eurocêntrico racista busca apagar com o seu monismo desenvolvimentista. Relacionamento com as fontes: não adotamos aqui o conceito tradicional de fonte no jornalismo, tratada apenas como o depositário inicial das informações e distanciada de todo os demais processos de produção de conteúdos jornalísticos. Apostamos na fonte como caminho, não como ponto de partida. Apostamos na fonte como igarapés comunicativos, não como nascentes. Convidamos ao exército prático do direito à comunicação, à participação efetiva e ao fazer junto. Apuração criteriosa e combate à desinformação: negar a imparcialidade e neutralidade jornalística não é reduzir a confiabilidade e o papel do jornalismo da sociedade atual. Ao contrário disso, é uma forma de transcender o papel meramente instrumental da profissão, de reencantar um jornalismo que seja capaz de transformar a realidade. Para isso, é necessário ser rigoroso nos métodos de investigação e apuração, de checar e rechecar os fatos e agir com responsabilidade social. Visão interseccional da informação: é um olhar para a informação e a notícia que vai “além do óbvio ululante que pulula nas mentes humanas”. É perceber que não podemos tratar de modo igual pessoas diferentes, que vivem em contextos distintos, com identidades de gêneros diferentes, cor de pele diferentes, com crenças e valores distintos. É um compromisso com os direitos das mulheres, lgbtqiapn+, PCDs, negros/as: um olhar sensível, que enxerga as desigualdades e busca caminhos para superá-las. Compromisso com acessibilidade: escrevemos textos para serem lidos nos olhos ou com os ouvidos. Gravamos áudios para serem escutados, mas também para serem lidos pelos olhos. Pensar uma comunicação de fazer entender a todos os públicos é um desafio diário, mas extremamente necessário em um contexto onde a informação precisa chegar a um conjunto cada vez maior de pessoas. |

Política de publicações
A plataforma Ocorre Diário se organiza a partir de uma lógica que rompe com o modelo tradicional de redação jornalística. Não há hierarquias rígidas entre repórteres, editores ou chefias. O que existe é um fluxo coletivo, horizontal e circular de produção, sustentado por comunicadores e comunicadoras populares que compartilham responsabilidades, saberes e decisões ao longo de todo o processo.
No centro dessa dinâmica está a ideia de que produzir conteúdo não é uma tarefa fragmentada, mas um percurso integrado. As pautas nascem do território, das comunidades, dos movimentos sociais e das urgências do cotidiano. Elas emergem tanto da escuta ativa quanto dos espaços de articulação, como os diálogos comunitários, as ações de educação popular e as experiências culturais. A partir daí, o que se constrói não é uma pauta fechada, mas um campo aberto de colaboração.
Nesse fluxo, uma mesma pessoa pode atuar em diferentes frentes: apuração, escrita, registro audiovisual, edição, publicação e circulação. As funções não são fixas, elas se reorganizam conforme a necessidade do processo. O que orienta essa dinâmica é a noção de horizontalidade e circularidade: cada integrante assume responsabilidades de acordo com sua disponibilidade, conhecimento e vínculo com o tema, sem que isso signifique subordinação a uma cadeia hierárquica.

Política de Correção de Erros
No Ocorre Diário, acreditamos que a confiança se constrói diariamente por meio da transparência, da responsabilidade social e do compromisso permanente com a verdade. Nosso jornalismo é orientado pela escuta sensível, pela apuração criteriosa, pela checagem e rechecagem das informações, pelo diálogo com os territórios e pelo respeito às pessoas e comunidades retratadas. Ainda assim, reconhecemos que nenhuma prática jornalística está livre de falhas. Erros de grafia, identificação, datas, números, informações contextuais ou interpretações podem ocorrer, mesmo diante dos cuidados adotados em nosso processo editorial colaborativo. Quando isso acontece, entendemos que corrigir não é apenas uma obrigação técnica, mas um compromisso ético com nossa audiência e com os sujeitos que confiam em nosso trabalho.
Sempre que um erro for identificado pelo Ocorre Diário ou comunicado por leitores, fontes, parceiros ou organizações, a informação será imediatamente verificada e, quando confirmada a inconsistência, corrigida com a maior brevidade possível. Nos casos em que a correção puder ser realizada de forma imediata, o conteúdo será atualizado e receberá uma nota de transparência ao final da publicação informando o que foi alterado.
Em situações que envolvam erros mais graves ou que comprometam a compreensão da reportagem, o material poderá ser temporariamente retirado do ar até que a correção seja concluída. Acreditamos que reconhecer e corrigir erros fortalece a credibilidade do jornalismo independente e aprofunda nossa relação de confiança com o público. Caso identifique qualquer inconsistência em nossas publicações, entre em contato conosco pelos canais oficiais do Ocorre Diário para que possamos analisar e corrigir a informação, quando necessário.
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