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Navalhadas Diplomáticas: desafios da atuação política para as travestilidades negras

Texto: Ayra Dias

Diplomacia é uma lâmina de corte fino e letal, tal qual uma navalha. Apresenta-se como um desafio quase que insuperável às travestilidades negras, pois, para aquelas cujo o futuro por vezes parece inalcançável, atuar por estas vias beira à covardia, restando somente o enfrentamento bélico e o uso das palavras incendiárias como molotovs que queimam tudo ao entorno, inclusive a si mesmas. Um questionamento intrigante que paira sobre os desjuízos é: por que ter parcimônia quando tudo e todos estão contra nós? Como ter calma quando uma irmã tomba ao lado e você pode ser a próxima? Quando nos aproximamos dos espaços de construção coletiva, a lição primeira é de que, no duro, na hora do vamo ver, o que resta é travesti por travesti e para eles, o que voga é o pacto narcísico da cisgeneridade: protegem-se e delegam a nós o papel de agressivas, aquelas com as quais é impossível trabalhar, pois, segundo eles, somos reativas e difíceis. Perdem-se em adjetivos pejorativos para preservação da mediocridade que os reveste. Pelo meio do caminho ficam muitas de nós, desacreditadas e desesperançosas, desistindo de espaços de poder e decisão, pois, se todos os espaços são transfóbicos, não vale a pena construir ou reivindicar lugar algum, e assim eles vão vencendo, enquanto para nós se reserva um destino comum, que faz de todas nós travestis, e se somos travestis iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, a mesma morte travesti, que é a morte que se morre de velhice ante dos 30, de emboscada antes dos 20 e de fome um pouco por dia. Como pode, então, a diplomacia covarde ser ferramenta para quem aprendeu desde cedo que a única forma de manter-se de pé é enfrentando tudo de frente e peito aberto? Para acreditar na diplomacia, é necessário acreditar no futuro, e essa é uma tarefa difícil. Não se trata de uma ação de silenciamento e apequenamento, mas de compreender o momento adequado para fazer o uso do arsenal incendiário e, sobretudo, para onde direcionar as chamas, pois, se apenas queimarmos tudo de maneira indiscriminada, não nos restará nada além das cinzas. Isso significa que, por vezes, vamos ter que recalcular as rotas, reorganizar discursos e compreender o custo-benefício das relações e dos espaços a curto, médio e longo prazo. Talvez o caminho não seja arrombar todas as portas, pois uma nova será colocada no lugar; então, uma vez possível a entrada, o ideal pode ser permanecer tempo suficiente para compreender como funcionam as engrenagens, para que tenhamos o domínio e, então, possibilitar a entrada de outras.

Mas não se permitam enganar: esta lâmina da diplomacia é asséptica, elitista e racista, não se permite ser usada por todas. No entanto, a ancestralidade que nos constitui nos ensina o domínio de muitas lâminas, dos fios do machado aos inofensivos espelhos; nos momentos de necessidade, usamos a força do nosso orí e vencemos muitas batalhas. Discorrido este emaranhado de palavras, qual o papo, afinal? É negociar com os algozes? A gente não negocia, o papo é evitar baixas, garantir suprimentos, traçar adequadamente as estratégias e partir para a batalha com condições reais de vitória. Para escurecer, vou usar o seguinte exemplo hipotético: uma travesti negra denuncia publicamente a falta de investimento real em candidaturas de pessoas negras em um momento politicamente sensível na América Latina. Qual seria o caminho diante disso? Abandonar este espaço e construir um novo? De forma superficial, pode até parecer adequado, mas soma-se a isto o custo político, a ausência de aliados longínquos, experientes e confiáveis, além de simbolizar um recuo derrotista diante de uma causa justa. Neste momento, faz-se o uso da navalha diplomática, provocando extensos diálogos, sobretudo compreendendo que o campo político da esquerda, apesar de possuir desafios e incongruências, não se constitui inimigo declarado, embora permaneça, neste campo, aqueles cujos interesses e objetivos não diferem de quem está em campos diversos. Eis o desafio da atuação diplomática: oferecer diálogo quando diante de nós está um projeto de morte. Embora desafiadora, a diplomacia é uma arma que podemos e devemos usar, trata-se não da arma dos covardes, mas da ferramenta daqueles que vislumbram futuro.

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