
Por Maria Lúcia de Oliveira
O menino David sonhava em ter uma bicicleta e acabou sendo esmagado pela roda de um caminhão.
A morte do menino David Kauan, de apenas 12 anos, é um chamado a ação para o movimento negro do Piauí. Há dois anos recebemos a provocação de um grupo de mulheres para visitar mulheres catadoras que atuam no aterro sanitário de Teresina. Fomos em busca dos relatos dessa população marginalizada para entender as razões que levam essas pessoas a recorrer ao lixo para garantir sua sobrevivência. Conversamos com muitos trabalhadores e trabalhadoras da região, ouvimos relatos fortes, alguns estão gravados em vídeo, que escolhemos não publicar pelo grande impacto.
Os catadores e catadoras de lixo vêm de uma situação de vulnerabilidade social muito grande, sem acesso à políticas públicas e enfrentando dificuldades para sobreviver. O lixo surge como última alternativa, mas algo que é comum na zona sul da capital. Os marcadores sociais são evidentes, é a população negra que está sofrendo naquele lugar com toda a insalubridade, até mesmo o aspecto da pele muda, se torna amarelada pela convivência com a sujeira, microrganismos e gases gerados pelo lixo.
Nossa intenção era filmar dentro do aterro, mas fomos barrados logo na entrada. Ficamos do portão para fora, observando os carros que entram e saem, assim como as pessoas que vivem da catação do lixo. As denúncias são muitas, prostituição, tráfico de entorpecentes, o forte odor que avança por quilômetros no entorno do aterro, sem falar as consequências ambientais do chorume que penetra no solo.

Um dos relatos que mais me marcou foi de um trabalhador ainda jovem, com esposa e filhos, que catava lixo desde que chegou à Teresina, expulso de sua região no interior do Piauí pelas violações e conflitos gerados pelo agronegócio e indústrias de energias renováveis. A falta de oportunidade e a necessidade de sustentar a família o deixou sem alternativas, agora ele reclama de uma coceira nos braços que não passa, problemas de pele enfrentados por muitos expostos aos perigos do aterro onde trabalham mais de 400 pessoas, entre homens, mulheres, idosos e crianças, conforme relatos.
Questionamos ao rapaz qual o objeto mais estranho que ele já encontrou no lixo e ele revelou: “uma perna humana, de uma mulher”. Segundo ele, a perna estava visível, mas era algo banal e logo desapareceu embaixo dos tratores.
Os relatos desses trabalhadores sobre sua situação já haviam sido reunidos em uma carta que foi entregue à Ministra da Cultura, Margareth Menezes, e solicitamos que fosse encaminhada para Silvio Almeida, à época ainda ministro dos Direitos Humanos, e para Anielle Franco, Ministra da Igualdade Racial, porém nunca conseguimos respostas, a carta chegou ao Ministério Público, mas estagnou.

A morte do menino David nos traz uma reflexão muito forte: não podemos nos silenciar diante dessa situação!
As autoridades sabem o que está acontecendo. A cortina de fumaça de 20 anos de governo de esquerda às vezes nos impede de perceber o sofrimento pelo qual tem passado a população preta, tendo que ficar à sua própria sorte, e a única política que chega nas comunidades é o encarceramento. A morte do menino David deve nos incomodar e não só incomodar, exige de nós, a população negra, ação! O menino David sonhava em ter uma bicicleta e acabou sendo esmagado pela roda de um caminhão. Quantos Davids não se encontram hoje lá no lixão catando lixo correndo risco de perder a vida?
A questão do aterro sanitário precisa ser vista com um olhar crítico e resolutivo para a situação daquela população preta que vive ali. Eu como Mãe de Santo não posso me furtar de fazer uma denúncia dessas, porque acredito que essa denúncia da morte do menino David é um chamado para os movimentos negros. Dançar é bom, tocar tambor é bom, inaugurar imagens é bom, mas Iemanjá é mãe. Os nossos guias nos ensinam que não existe vitória sem luta, assim também como não existe cura sem luta. Não tem como a gente não se adoecer, não se afetar com essa tragédia anunciada que aconteceu com o menino David.
Todos os políticos estão cientes do que acontece ali. E não é responsável somente o prefeito. Precisamos chamar a responsabilidade também para o governador, são vários responsáveis por aquelas injustiças. Porque durante a fala do trabalhador ele disse que foi espantado pelo capital, pelas injustiças no campo. Quem expulsa, quem faz acordo são os grandes latifundiários que fazem acordo com o governo, que não deixa nenhuma alternativa para a população preta que não seja marginalização.
O prefeito também não aponta nenhuma saída e nenhuma dessas organizações aponta saídas, mas o fato é que denúncias nós temos feito em todos os lugares que nós temos ido, nós temos falado que aquela situação do lixão precisa ser resolvida de uma vez por todas. ido, nós temos falado que aquela situação do lixão precisa ser resolvida de uma vez por todas.
Revisão: Wilton Lopes
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