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Receber sem se calar

“Recebi essa homenagem na solenidade de abertura da III Feira da Agricultura Familiar, Povos Tradicionais e Economia Solidária do Piauí, juntamente e ao lado de outros (as) companheiros (as) que têm se dedicado a essa causa. Como não costumo ficar calado, resolvi fazer aqui esta manifestação pública, já que não tive a oportunidade no exato momento. Segue…”

Altivez sempre receber sem se calar

Recebo com gratidão a homenagem que me é concedida em reconhecimento à minha contribuição para o fortalecimento da agricultura familiar. Agradeço ao governo do Estado e à Secretaria de Agricultura pelo gesto, pois toda homenagem é também um convite à memória.

E a memória, quando é honesta, nunca vem pela metade.

Durante vinte anos percorri o Piauí de sul a norte como extensionista rural da Emater. Conheci os sertões, as chapadas, os baixões, as quebradas e as comunidades onde a agricultura familiar camponesa resiste muito mais pela coragem e garra de seu povo do que pela presença permanente do Estado.

Foi ali que aprendi que fazer extensão rural nunca foi apenas transferir tecnologias. Era preciso ouvir antes de falar, aprender antes de ensinar, construir conhecimento junto com quem vive da terra, mesmo, às vezes, sem ser proprietário. Foi essa compreensão, inspirada na pedagogia libertadora de Paulo Freire, que orientou meu trabalho.

Essa opção teve custos.

Em diferentes momentos (regime militar) fui perseguido por defender uma extensão rural participativa, comprometida com a organização das famílias agricultoras e não apenas com metas burocráticas ou pacotes tecnológicos.

Nunca considerei esse caminho um ato de rebeldia. Era apenas coerência com aquilo em que sempre acreditei.

Anos depois, retornei à Emater para assumir sua Direção-Geral. Aceitei aquela missão acreditando que era possível fortalecer uma instituição pública essencial para a agricultura familiar, percorri esse caminho. Procurei governar da mesma forma como havia trabalhado no campo: ouvindo, dialogando e valorizando os extensionistas e os agricultores e agricultoras.

Mas a coerência, muitas vezes, cobra seu preço.

Não fui reconduzido para um segundo mandato, ainda tentei outros espaços públicos como foram outras experiências MDA, SAF. Minha permanência tornou-se incômoda e incompatível com escolhas políticas que apontavam em outra direção. Saí da institucionalidade para continuar o mesmo sem abandonar aquilo que sempre defendi.

Apenas mudei o lugar da luta.

Preferi continuar fora da estrutura oficial, dedicando minha energia à construção da extensão rural popular, à agroecologia e à defesa da Reforma Agrária Popular, porque acredito que esses continuam sendo caminhos indispensáveis para um desenvolvimento que distribua riqueza, respeite a natureza e reconheça os agricultores e agricultoras familiares camponesas como protagonistas da produção de alimentos e da preservação da vida.

É por isso que recebo esta homenagem sem abrir mão da palavra.

Seria incoerente agradecer sem reconhecer a profunda contradição que atravessa este momento. Ao mesmo tempo em que se homenageia uma trajetória e outras construídas na defesa da agricultura familiar, consolidam-se políticas que privilegiam um modelo de desenvolvimento centrado no agronegócio e nos grandes empreendimentos, enquanto instituições estratégicas para o fortalecimento da agricultura familiar e da extensão rural pública são enfraquecidas e até extintas. Ex: o Emater-Pi;

Não escrevo essas palavras movido por ressentimento.

Escrevo por responsabilidade com minha própria história.

Reconheço a importância econômica do agronegócio em um outro contexto de uma outra matriz produtiva. Mas nunca aceitei que ele fosse apresentado como caminho hegemônico para o desenvolvimento do Piauí. Um Estado verdadeiramente desenvolvido não é aquele que apenas amplia exportações, aumenta o PIB e concentra riqueza. É aquele que opta pela produção de Energia Renovável descentralizada, democratiza o acesso à terra, fortalece a agricultura familiar, investe em assistência técnica pública, protege suas águas, seus cerrados e suas caatingas e combate às desigualdades que ainda marcam nosso campo.

A homenagem que hoje recebo não altera minhas convicções; ao contrário, me convida a reafirmá-las.

Continuo acreditando na Reforma Agrária Popular como instrumento de justiça social. Continuo acreditando em uma matriz energética sustentável descentralizada, na agroecologia como ciência, prática e esperança. Continuo acreditando que a extensão rural pública deve ser um processo educativo, emancipador e profundamente humano, como nos ensinou Paulo Freire.

Recebo esta homenagem com gratidão institucional, mas sobretudo com fidelidade à minha consciência.

Os governos passam. Os mandatos terminam. As homenagens pertencem ao seu tempo.

A coerência, essa permanece.

É ela que desejo legar aos que continuarão semeando um Piauí mais justo, mais democrático e mais solidário.

Adalberto Pereira de Sousa – Extensionista rural popular, um dos fundadores do PT no Piauí e atualmente militando na ArREPIA -Articulação em rede Piauiense de Agroecologia e no MAR – Movimento das Atingidas e Atingidos pelas Energias Renováveis.

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