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A hipocrisia conservadora diante da eleição de Erika Hilton

Texto opinião, por: Jeremias Santos. Natural de Oeiras-PI, o autor é jornalista, poeta, animador cultural e Agente Territorial de Cultura, atuando na promoção da cultura, da cidadania e do debate público sobre sociedade, política e diversidade.

A eleição da deputada Erika Hilton para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados do Brasil escancarou uma velha e conhecida contradição da política brasileira: a hipocrisia seletiva de parte da direita e do conservadorismo. De repente, aqueles que raramente demonstraram qualquer compromisso real com a ampliação da participação feminina na política resolveram se apresentar como grandes guardiões das mulheres. A indignação performática, no entanto, não resiste a alguns minutos de observação honesta da realidade brasileira.

Durante décadas, os mesmos grupos políticos que hoje se dizem escandalizados com a presença de Erika Hilton à frente de uma comissão voltada aos direitos das mulheres nunca demonstraram preocupação consistente com a sub-representação feminina na política nacional. O Congresso brasileiro continua sendo um espaço profundamente dominado por homens. Apesar de as mulheres representarem mais da metade da população do país, elas ocupam menos de um quinto das cadeiras da Câmara. Esse dado, por si só, deveria provocar um intenso debate nacional sobre desigualdade política, participação democrática e barreiras estruturais que impedem mulheres de chegar aos espaços de poder.

Mas, curiosamente, esse tema raramente mobiliza a mesma indignação que agora aparece em discursos inflamados nas redes sociais e nos plenários. Não vemos campanhas indignadas denunciando a desigualdade de representação. Não vemos mobilizações massivas pedindo mais espaço para mulheres na política. Não vemos o mesmo tom alarmista quando partidos negam apoio, financiamento e visibilidade a candidaturas femininas. A revolta parece surgir apenas quando uma mulher trans ocupa um cargo de destaque.

A reação de setores conservadores à eleição de Erika Hilton mostra que, para muitos deles, a discussão sobre direitos das mulheres continua presa a uma visão extremamente limitada de quem pode falar, representar e participar desse debate. A ideia de que uma mulher trans possa presidir uma comissão dedicada às mulheres parece provocar uma espécie de curto-circuito ideológico em setores que prefeririam manter intactas as fronteiras tradicionais de gênero e poder.

Mas a realidade social é muito mais complexa do que essas categorias rígidas que alguns tentam impor ao debate público. O Brasil é um país diverso, plural, atravessado por múltiplas experiências de vida. Mulheres existem em diferentes contextos sociais, raciais, econômicos e identitários. Negar essa diversidade é, na prática, negar a própria realidade brasileira.

Outro dado raramente lembrado pelos críticos de ocasião é que existem apenas duas mulheres trans em todo o Congresso Nacional. Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, essa presença é quase simbólica. Pessoas trans continuam extremamente sub-representadas na política institucional, assim como em inúmeros outros espaços de poder. A dificuldade de acesso à educação, ao mercado de trabalho formal, à segurança e ao reconhecimento social ainda marca profundamente a vida dessa população.

Ainda assim, quando uma dessas poucas vozes conquista visibilidade política e institucional, a reação de determinados setores é imediata e agressiva. A presença se torna alvo de ataques, questionamentos e tentativas de deslegitimação. Não se discutem propostas, não se avalia o trabalho parlamentar, não se debate competência. O foco passa a ser a identidade da pessoa que ocupa o cargo.

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Esse tipo de reação revela muito sobre as estruturas de poder que historicamente moldaram a política brasileira. Durante muito tempo, o acesso ao poder esteve restrito a um perfil bastante específico de indivíduos: homens, em sua maioria brancos, provenientes de determinadas elites políticas e econômicas. Qualquer tentativa de ampliar esse perfil tradicional frequentemente encontra resistência.

Quando mulheres começaram a ocupar mais espaços na política, também enfrentaram desconfiança, ataques e tentativas de desqualificação. Quando mulheres negras passaram a ganhar visibilidade institucional, a reação foi semelhante. Agora, quando uma mulher trans ocupa uma posição de destaque, repete-se o mesmo roteiro.

Existe também uma contradição cultural profunda que atravessa essa discussão e que raramente é encarada de frente. O Brasil é frequentemente apontado por organizações internacionais como o país que mais registra assassinatos de pessoas trans no mundo. Trata-se de uma realidade brutal, que revela o nível de violência, exclusão e vulnerabilidade enfrentado por essa população.

Ao mesmo tempo, estudos sobre comportamento digital mostram que o Brasil também figura entre os países que mais consomem pornografia envolvendo pessoas trans. Essa coexistência entre violência pública e consumo privado revela uma dissonância moral profundamente enraizada na sociedade.

Em outras palavras, o mesmo país que marginaliza e desumaniza pessoas trans no espaço público frequentemente consome e fetichiza seus corpos no espaço privado. Essa contradição ajuda a entender parte da hostilidade dirigida a figuras públicas trans. Muitas vezes, o discurso moralista não nasce apenas de divergências ideológicas, mas também de tensões culturais mais profundas relacionadas a desejo, repressão e culpa.

Em uma sociedade marcada por fortes tradições conservadoras, a existência de identidades que desafiam normas rígidas de gênero pode provocar reações intensas. Quando essas identidades deixam de estar invisíveis e passam a ocupar posições de poder, o incômodo se torna ainda maior. Aquilo que antes era ignorado ou marginalizado passa a ser visto, ouvido e reconhecido institucionalmente.

Há ainda um elemento psicológico e cultural que raramente é dito em voz alta, mas que ajuda a compreender parte desse ódio. Em muitos casos, a violência verbal e política dirigida a pessoas trans pode estar ligada a conflitos internos de desejo reprimido. Em sociedades profundamente moralistas, aquilo que desperta curiosidade ou atração muitas vezes é transformado em repulsa pública como forma de negar ou esconder esse próprio desejo. O ataque vira mecanismo de defesa. A hostilidade vira máscara. E o preconceito passa a funcionar como uma tentativa de silenciar aquilo que, no fundo, provoca inquietação.

Esse reconhecimento provoca reações que frequentemente se disfarçam de debates morais ou institucionais, mas que, na verdade, refletem disputas mais profundas sobre quem tem direito à cidadania plena. A eleição de Erika Hilton para presidir a comissão de direitos das mulheres não é apenas um evento parlamentar. Ela simboliza também uma mudança no perfil das vozes que participam do debate político nacional. Representa a entrada de trajetórias que historicamente foram excluídas dos espaços de decisão.

Para alguns setores da sociedade, essa mudança é vista como avanço democrático. Para outros, ela é percebida como ameaça a estruturas tradicionais de poder. É nesse ponto que surgem as reações mais ruidosas.

O barulho gerado em torno da eleição de Erika Hilton não pode ser compreendido apenas como um debate institucional sobre uma comissão parlamentar. Ele reflete tensões sociais mais amplas sobre diversidade, representatividade e transformação política.

A democracia, por definição, é um sistema em constante expansão de vozes e perspectivas. Ela não se fortalece mantendo sempre os mesmos grupos no controle das instituições. Pelo contrário, ela se fortalece quando novas experiências sociais passam a participar da construção das decisões coletivas.

É natural que esse processo gere conflitos. Toda ampliação de direitos e representações historicamente encontrou resistência. Foi assim com o voto feminino, foi assim com os direitos civis, foi assim com inúmeros avanços sociais ao longo da história.

Quando aqueles que sempre foram empurrados para as margens começam a ocupar posições de visibilidade e liderança, algumas estruturas de poder se sentem ameaçadas. O desconforto que surge nesses momentos frequentemente se traduz em discursos indignados, tentativas de deslegitimação e narrativas alarmistas.

No entanto, por trás de toda essa indignação, permanece uma pergunta simples que muitos preferem evitar. Se a preocupação fosse realmente com a defesa das mulheres, por que o silêncio diante da sub-representação feminina na política brasileira foi tão longo? Por que a desigualdade estrutural nunca provocou a mesma revolta?

Talvez porque, no fundo, a indignação não esteja relacionada à defesa das mulheres. Talvez ela esteja relacionada à quebra de um modelo tradicional de poder que, durante muito tempo, funcionou sem grandes questionamentos.

Quando esse modelo começa a ser desafiado, a hipocrisia que o sustentava se torna muito mais visível.

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