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De comunidade ameaçada a referência nacional: Centro de Defesa e Mãe Maria Lúcia conquistam Prêmio República

Por Luan Matheus Santana 

A história da comunidade Boa Esperança, na zona Norte de Teresina, é marcada pela resistência. O que começou como uma luta para permanecer no território diante das remoções provocadas pelo Programa Lagoas do Norte transformou-se em uma das mais importantes experiências de defesa popular de direitos do país. Nesta trajetória, a liderança de Mãe Maria Lúcia de Oyá e a organização coletiva da comunidade foram fundamentais para a construção do Centro de Defesa Ferreira de Sousa (CDFS), que anunciado na manhã desta quinta-feira (18), como vencedor do XIV Prêmio República na categoria Responsabilidade Social.


A premiação, promovida pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), reconhece iniciativas que fortalecem a cidadania, a justiça social e os direitos fundamentais. O Centro de Defesa Ferreira de Sousa disputou a categoria com organizações de alcance nacional e foi reconhecido pelo trabalho desenvolvido desde 2008 junto a comunidades ameaçadas por violações do direito à moradia e processos de exclusão urbana.

As indicações foram realizadas por uma delegação constituída pelo secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, João Alegria; pela ativista de direitos humanos e meio ambiente, Neidinha Suruí; e pela advogada Ana Paula de Freitas. Ana Paula, advogada de Direitos Humanos que indicou o Centro de Defesa Ferreira de Sousa, na pessoa da matriarca Mãe Maria Lúcia de Oyá, faz parte da comissão curadora do Prêmio República, em Brasília/DF, responsável pela indicação dos premiados na categoria Responsabilidade Social, juntamente com Neidinha Suruí e João Alegria.

O Centro nasceu da necessidade de enfrentar os impactos das políticas urbanas que colocavam em risco a permanência de milhares de famílias. Ao longo dos anos, consolidou uma metodologia de assessoria técnica popular, articulando apoio jurídico, comunicação comunitária, preservação da memória e fortalecimento cultural.

A experiência deu origem a iniciativas como o Museu da Resistência Boa Esperança, o Memorial Casa Professora Maria Sueli Rodrigues e a Biblioteca Entre Rios, além de ser fundamental no processo de construção da Plataforma de Comunicação Popular e Colaborativa – Ocorre Diário. Mais do que equipamentos comunitários, esses espaços se tornaram instrumentos de fortalecimento da identidade local e de defesa dos direitos coletivos.

Para Mãe Maria Lúcia de Iansã, uma das principais lideranças da Boa Esperança e referência na construção do Centro de Defesa, o reconhecimento nacional representa tanto uma conquista quanto um compromisso. “Receber o Prêmio República de Responsabilidade Social é gratidão e responsabilidade. Este prêmio celebra uma verdade: quando Estado e organizações sociais caminham juntos, quem mais precisa deixa de ser estatística e vira prioridade”, afirmou.

Segundo ela, a premiação evidencia a importância da parceria entre instituições públicas e organizações populares para garantir a efetivação dos direitos das populações mais vulneráveis. “O Estado traz a lei e a estrutura. Nós trazemos a capilaridade e o cuidado diário. Separados, somos esforço. Juntos, somos transformação”, destacou.

A conquista também simboliza o reconhecimento de uma luta construída coletivamente por moradores, lideranças comunitárias, educadores populares, pesquisadores e defensores de direitos humanos que, ao longo de quase duas décadas, resistiram às tentativas de apagamento de sua história e de seu território.

Esse prêmio chega como a confirmação de que experiências locais, construídas a partir da solidariedade e da organização popular, podem produzir impactos que ultrapassam as fronteiras do bairro e se tornam referências para todo o país. “Recebemos este prêmio como combustível. Compromisso de ser braço estendido do poder público onde a distância é maior. Que ele inspire mais parcerias. Proteger os vulneráveis é a medida da grandeza de um país”, concluiu Mãe Maria Lúcia.

Da resistência contra as remoções à construção de um modelo de organização popular reconhecido nacionalmente, a trajetória do Centro de Defesa Ferreira de Sousa demonstra que a defesa dos direitos humanos nasce, muitas vezes, da organização de comunidades que se recusam a desaparecer.

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