
A preocupação com o futuro da Chapada do Araripe, um planalto de 1.017.3364 hectares, localizado na divisa dos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, caracterizado pelos biomas Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, aumentou muito depois que o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) anunciou que cerca de 89% do território poderá ser utilizado para produção agrícola e pecuária.
Diante da informação e do avanço da destruição do território, surgiu o “Movimento Salve a Chapada do Araripe”, criado por ambientalistas, pesquisadores e moradores dos três estados para tentar barrar o avanço do agronegócio. O coletivo vem realizando seminários para debater as condições da Chapada nos três estados. No dia 29, na cidade de Simões-PI, aconteceu o III Seminário Salve a Chapada do Araripe.
As críticas dirigidas ao ICMBio a respeito do Plano de Manejo para o uso do território tornaram a participação do presidente do órgão, Mauro Pires, o momento mais marcante do seminário. Segundo ele, o plano foi elaborado com a participação de representantes de vários segmentos da sociedade dos três estados e “estabelece regras para organizar os diferentes usos do território e compatibilizá-los com a conservação ambiental”, disse.

O presidente explicou que a Zona de Produção permite as atividades produtivas previstas em APAs, mas não autoriza desmatamentos ou atividades comerciais impactantes. Ele ressaltou, que a nova legislação ambiental aprovada no Congresso Nacional foi um retrocesso para o meio ambiente e que, diante do cenário atual, o que foi possível fazer foi estipular regras justamente para assegurar a biodiversidade da Chapada.
O seminário contou também com a participação de pesquisadores de destaque: Kalleb Oliveira, expôs sobre os bens ambientais e culturais da região, o reconhecimento e a valorização desses patrimônios; Paulo Victor Oliveira, abordou sua pesquisa e as ações de divulgação científica e de proteção do patrimônio fossilífero em Simões; e Adalberto Pereira, que discorreu sobre os impactos das usinas eólicas na Chapada do Araripe. O pesquisador Weber Girão, que descreveu o pássaro soldadinho do Araripe também enriqueceu o evento falando sobre sua importância.

A Rede Ambiental do Piauí (REAPI), entidade integrada ao movimento, vem articulando ações em defesa da Chapada no território piauiense, que abriga oito municípios, denunciando desmatamento e, em especial, os impactos dos complexos eólicos, que ocupam cada vez mais espaço na região sem considerar o modo de vida, o trabalho, a cultura, a moradia e o meio ambiente das comunidades rurais de Simões e Marcolândia.

MOVIMENTO SALVE A CHAPADA DO ARARIPE
Integrante do Movimento, Aldenir Saraiva, ativista ambiental e escritora, explica que foi necessário unir forças para tentar evitar a destruição de toda a biodiversidade da Chapada, considerada rica, diversa e, principalmente, responsável pela produção de água. “Atividades do agronegócio no topo da chapada ameaçam diretamente os recursos hídricos dos três estados dependentes dessa água”, diz Aldenir, acrescentando que o movimento já vinha crescendo diante do cenário atual e após o ICMBio declarar que vai realizar o Plano de Manejo da Chapada, destinado quase 90% do território para produção.
“O agro ameaça as abelhas nativas e, consequentemente, a produção de mel. Ameaça também as comunidades extrativistas da chapada e as espécies vegetais e animais, como o soldadinho-do-araripe, uma ave endêmica da região que pode desaparecer devido às monoculturas e ao uso de agrotóxicos. A Chapada do Araripe é um patrimônio vivo, cultural e diverso”, lembra Aldenir.
Dados do ICMBio revelam que, no ano de 2020, a Área de Proteção Ambiental Federal (APA) do Araripe foi a 15ª Unidade de Conservação Federal mais desmatada no Brasil. Em 2025, ficou em 14ª e, já este ano de 2026, foram emitidos 176 alertas de desmatamento dentro da APA, totalizando uma área de 1.176 hectares, conforme dados do MapBioma, que trouxe ainda a informação de 2.188,6 hectares, correspondendo a um aumento de 24,6%.
Pesquisas realizadas por paleontólogos dizem que a Chapada é considerada o “berço do mundo”, devido à presença de plantas de 110 a 120 milhões de anos, incluindo o fóssil da primeira flor de que se tem registro, que é considerado o mais antigo do mundo. Atualmente, concorre ao título de Patrimônio Cultural da Humanidade, como reconhecimento e valorização da ciência devido às infinitas pesquisas já realizadas, à cultura local e ao turismo.
Outra riqueza incalculável da Chapada é a ave conhecida como Soldadinho-do-Araripe, que foi identificada em 1996 e ocorre principalmente nos municípios de Crato, Barbalha e Missão Velha, na região do Cariri cearense. Atualmente, o Soldadinho-do-Araripe encontra-se criticamente ameaçado, em função da degradação do seu habitat.
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