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No Piauí, quase 1 milhão de pessoas vivem em áreas rurais sem esgotamento sanitário e falta água para 500 mil 

Reportagem : Luan Matheus Santana

“Água boa aqui pra beber, a gente tem que comprar” 

A afirmação é da dona Maria da Paz, agricultora rural aposentada e uma das primeiras moradoras do Caldeirão, comunidade da zona rural de Piripiri, a 169 km ao norte de Teresina. Essa afirmação não seria nenhum absurdo, afinal de contas, apenas um terço das residências localizadas em áreas rurais conta com abastecimento por rede geral no Brasil, de acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Mas tem um detalhe nessa história que acentua uma contradição ainda difícil de entender: é que Dona Maria mora nas margens de um dos 15 maiores reservatórios de água do estado, com mais de 54 milhões de metros cúbicos de água, suficientes para encher quase 22 mil piscinas olímpicas: o açude caldeirão. Essa água toda até chega nas torneiras da casa da Dona Maria e das mais de 140 famílias que vivem na comunidade, mas chega sem tratamento adequado e imprópria para o consumo humano

Dona Maria da Paz, na calçada de casa. Foto: Wesley Oliveira / Ocorre Diário

Um problema que existe desde o surgimento da comunidade e que dona Maria, hoje com 80 anos, convive desde pequena. “Antigamente a gente ia buscar água em um olho d’água que tinha aqui na rua de cima. Era dentro da casa de um dos irrigantes. Quem tava em casa ia com litros e mais litros nas costas ou nas bicicletas. A gente enchia tudo direto da nascente. Água limpa, boa, natural. Mas acabou. O olho d’água secou e agora a gente precisa comprar água, porque a água do açude, que vem na torneira, não dá pra beber”, conta uma das filhas de dona Maria, Eliane dos Santos. 

Maria da Paz não é apenas uma moradora da comunidade Caldeirão, ela é parte da memória viva desse Território. Seus pais, Manoel Pereira da Costa e Maria Rodrigues da Costa, trabalharam na construção do açude e dos canais de irrigação, que levam água do Caldeirão para os campos de plantação, onde acomunidade produz arroz, feijão, melancia, algodão, etc. O açude foi inaugurado em 1945 pelo DNOCS – Departamento Nacional de Obras contra a Seca e os campos de irrigação começaram a ser plantados no final da década de 1960. 

A água, que desde sempre organizou o território e a vida em comunidade, ainda é um direito negado aos moradores do Caldeirão. “Foi na década de 70 para 80 que começou a ir água para Piripiri do açude. Mas o objetivo do perímetro era projeto irrigado, certo? Primeiro foi a irrigação dos campos de plantação, depois o abastecimento de água”, explica Antônio Carlos Eleutério, conhecido como Tico, ex-funcionário do DNOCS e membro da Associação de Moradores da comunidade. 

Milhões e milhões de litros d’água acumulados quase na porta de casa, e ainda assim a rotina de mais de 140 famílias da comunidade segue marcada pelo mesmo gesto: carregar litros d’água na cabeça ou separar o dinheiro da feira para garantir também o que beber.

Também no norte do Piauí, na zona rural de Parnaíba, moradores do Assentamento Lagoa do Prado vivem uma situação semelhante. No início, as famílias chegaram ao território apenas com a força de trabalho, sem acesso a água, luz, moradia estruturada ou serviços básicos. Muitos vieram com a expectativa de melhorar a situação financeira, deixando para trás uma realidade já difícil. Nesse contexto inicial, a sobrevivência dependia de estratégias coletivas e improvisadas.

Simone Sousa. Foto: Luan Matheus Santana / Ocorre Diário

Simone chegou ao assentamento ainda criança. Viu seus pais enfrentarem muitos desafios ao longo da vida, mas nenhum deles durou tanto quanto o desafio de ter água boa para beber em casa. O assentamento foi entregue às famílias em 2003, após desapropriação das terras pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), que é órgão do governo federal responsável por executar a reforma agrária e organizar assentamentos rurais. Mais de duas décadas depois, a água potável ainda não chegou às torneiras da comunidade.

“Hoje a gente tem água em casa, porque temos essa caixa d’água aqui. A primeira veio por meio de um projeto de professores da Universidade e essa maior chegou quando a Águas de Teresina assumiu aqui em Parnaíba”, explica Simone. Essas melhorias que foram implementadas, de alguma forma, mudaram a relação dessas famílias com o acesso a água. O caminhão comunitário de distribuição de água foi aposentado e hoje está parado na garagem da associação. 

A água, hoje, chega nas torneiras das casas do assentamento. Mas chega inapropriada para o consumo humano. Ela é utilizada principalmente para banho e atividades domésticas. Para beber, os moradores dependem de carros-pipa enviados pela prefeitura, que muitas vezes passam dias sem aparecer. 

Promessas de melhoria, como o tratamento adequado da água e ampliação da infraestrutura, ainda não se concretizaram plenamente. Assim, tanto a Comunidade Caldeirão quanto o Assentamento Lagoa do Prado seguem enfrentando um problema estrutural histórico: a falta de acesso regular e seguro à água “boa pra beber”, como diz Dona Maria da Paz, ou seja, à água potável.

O acesso a água

A realidade das comunidades Caldeirão e Lagoa do Prado exemplificam um problema é bem mais amplo. Os dados do SINISA (Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico), do ano de 2024, ajudam a gente a entender melhor como está o acesso à água nas áreas rurais. 

No Piauí, pouco mais da metade da população rural, 51,32%, tem acesso à rede de abastecimento de água. Isso representa cerca de 526 mil pessoas, dentro de um total de mais de 1 milhão de moradores no campo. Esse número coloca o Piauí à frente de estados como Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Bahia e Rio Grande do Norte. Mas esse dado, por si só, não significa que a situação esteja resolvida. Quase metade da população rural do estado, cerca de 500 mil pessoas, ainda não têm acesso à água pela rede. E quanto tempo, como vimos nos exemplos do Caldeirão e Lagoa do Prado, nem sempre ela chega própria para o consumo. É muita gente que ainda vive sem um serviço básico. 

Painel de indicadores – SINISA

Outro aspecto que chama atenção é que esse acesso não acontece de forma igual em todo o território. Os mapas mostram que há municípios sem informações e também diferenças entre os níveis de cobertura. Isso indica que, dentro do Piauí, existem lugares com mais acesso e outros que seguem completamente sem atendimento. Além disso, os números falam apenas sobre a existência da rede, não sobre a qualidade da água, a regularidade do abastecimento ou a segurança deste serviço. Ou seja, mesmo entre quem está dentro desses 51,32%, não dá para garantir que a água chegue de forma contínua e adequada às mais de 500 mil pessoas que vivem em contextos rurais.

Um milhão de pessoas sem esgotamento sanitário

O cenário é ainda mais grave quando o assunto é saneamento sanitário. No Piauí, apenas 3,36% da população rural tem acesso à rede de coleta de esgoto. Estamos falando de um universo de mais de 1 milhão de pessoas vivendo no campo e que, na prática, quase todo mundo vive sem acesso a esse serviço básico. De acordo com os dados do SINISA, o estado aparece em cenário melhor que alguns estados vizinhos, como Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte. Mas quando a gente compara com a média nacional, que é de 4,75% nas áreas rurais, o Piauí ainda está abaixo dela. 

Painel de indicadores – SINISA

Os números revelam o tamanho do desafio, mas não dão conta de apontar sozinhos os caminhos e soluções. No caso do Piauí, a situação também tem relação com o próprio perfil do estado. A população rural é grande e bastante espalhada, o que traz desafios históricos de infraestrutura, financiamento e organização. Ainda assim, os números mostram que o que foi feito até agora não tem sido suficiente para mudar essa realidade. E tem um ponto que não pode ser ignorado. Falar de saneamento não é só falar de obra ou estrutura. É falar de saúde, de dignidade, de qualidade de vida.

Piauí inicia modelo pioneiro no Brasil que pode redesenhar o mapa do saneamento rural

Em dezembro de 2024, o Piauí começou a operar um novo modelo de gestão do saneamento. A privatização do serviço foi ampliada para o todo estado e foi alvo de duras críticas e resistência de diversos segmentos da sociedade, em especial, por usuários e trabalhadores do setor. A privação dos serviços de abastecimento de água e saneamento não é uma novidade no Brasil, ela já atingiu estados como Amapá, Alagoas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Sergipe, São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Paraná, Pará e Amazonas. Cada estados com modelos próprios e especificidades. 

Nos últimos cinco anos, o saneamento no Brasil passou por uma mudança rápida com o avanço das empresas privadas. Segundo a ABCON – Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto, o número de cidades atendidas por essas empresas saltou de 291, em 2020, para 1.820 até meados de 2025, um crescimento de mais de 525%. Hoje, grupos como AEGEA, Equatorial, BRK Ambiental e Iguá concentram boa parte dessa atuação. Juntas, essas empresas já atendem mais de 30% da população brasileira, cerca de 88 milhões de pessoas. Só a AEGEA alcança mais de 38 milhões de brasileiros, com operações em 893 municípios distribuídos em 15 estados e a meta de ampliar ainda mais essa presença nos próximos anos.

Mas tem um detalhe que torna o contrato de concessão firmado no Piauí diferente de todos os outros Brasil afora. Ele é, de acordo com Flávia Miranda, gerente executiva da Regional Meio Norte da Águas do Piauí, o primeiro no Brasil a incluir, no mesmo projeto, o atendimento das zonas urbanas e também das áreas rurais.

Flávia Miranda, Águas do Piauí. Foto: Luan Matheus Santana

A principal mudança está aí. Pela primeira vez, o meio rural entra de forma direta em um plano estruturado de expansão dos serviços de água e esgoto, seja em contratos privados ou projetos públicos. Para isso, o contrato divide essas áreas em dois tipos: o aglomerado rural, onde as casas são mais próximas, e o rural disperso, onde as moradias ficam mais afastadas.

Nos aglomerados rurais, a concessionária passa a operar o sistema diretamente, com equipes responsáveis pelo funcionamento. Já no rural disperso, estão previstos investimentos, mas a gestão continua com os municípios. O contrato inclui tanto o abastecimento de água quanto o esgotamento sanitário. A proposta é ampliar o acesso ao longo dos próximos anos. A meta é chegar a 99% de cobertura de água até 2033 e 90% de esgoto até 2040 nas áreas atendidas.

Antes de avançar, o trabalho ainda está em fase de levantamento. O contrato prevê um cadastramento das comunidades rurais em todo o estado. Esse mapeamento vai definir quais áreas entram como aglomeradas e quais são dispersas, e a partir disso orientar como será o atendimento.

Com esse modelo, o Piauí passa a testar um caminho novo no país. A inclusão do meio rural no mesmo contrato que atende as cidades coloca um desafio direto. Fazer com que esse planejamento chegue, de fato, até quem historicamente ficou fora do acesso ao saneamento.

Projeto está em fase de levantamento inicial 

A zona rural da cidade de Teresina ocupa cerca de 83% do território do município. São quase 100 comunidades que abrigam hoje, aproximadamente 5,7% da população total da cidade, de acordo com dados da Prefeitura de Teresina. Uma dessas comunidades é a Cacimba Velha, um povoado localizado na zona leste da cidade que há décadas convive com sérios problemas de infraestrutura, entre eles, a distribuição de água e o saneamento. Um problema que começa a mudar. 

Essa mudança é parte desse trabalho inicial do projeto implementado pela Águas do Piauí. “Aqui, como é zona rural, é Águas do Piauí. Na nossa comunidade e região melhorou essa questão da falta de água. O tratamento é feito diretamente na tubulação  já que não temos caixa d’água ou reservatórios”, explica a presidente da associação. 

Google Earth

Apesar do avanço na distribuição de água, o esgotamento sanitário ainda é problema sério na região. “Essa parte de esgoto não temos, já temos casas que foram colocados os medidores, mais esgoto não”, conta Ledy. 

De acordo com Flávia Miranda, nesse momento, o trabalho nas comunidades rurais do Piauí está concentrada basicamente em Teresina. E foi que a concessionária encontrou uma estrutura já existente, mas com limitações importantes. “Existem muitas comunidades que tinham poços perfurados, mas que não estavam equipados. Em outras áreas rurais, até existe rede de distribuição, porém a produção de água não é suficiente. Por isso, há o que chamamos de rotina de manobra, quando a água é direcionada para um lado pela manhã e para outro à tarde. Nesse início de operação, o objetivo é entender essa dinâmica de funcionamento do sistema”, explica.

A partir desse diagnóstico, a gerente explica que começaram as intervenções no abastecimento. Uma das principais ações foi a revitalização dos poços, com retirada de equipamentos, limpeza, desinfecção e avaliação das condições de funcionamento. Em alguns casos, foi necessário substituir bombas e readequar os sistemas instalados. Também foram implementadas medidas de proteção elétrica, com instalação de dispositivos para evitar danos causados por oscilações de energia, problema recorrente em diferentes regiões do estado.

“Hoje temos uma estrutura para atender a zona rural, com equipes que monitoram o sistema, controlam a qualidade da água, realizam as manutenções necessárias e fazem as manobras, garantindo que todas as partes das comunidades recebam água”, afirma Miranda. O objetivo, segundo a empresa, é avançar na regularidade do abastecimento e garantir a qualidade da água fornecida à população rural.

Principais obstáculos para o saneamento rural

Levar saneamento para áreas rurais envolve desafios complexos. Essas são regiões com pouca densidade populacional e, via de regra, uma vasta área territorial, o que dificulta a implantação de redes convencionais de água e esgoto e afasta tanto recursos públicos quanto privados. Além disso, há problemas de gestão, falta articulação entre União, estados e municípios, e muitas vezes as prefeituras não têm estrutura técnica para planejar, executar e manter os sistemas. Isso acaba travando projetos ou fazendo com que não se sustentem ao longo do tempo.

De acordo com Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, para avançar na universalização do saneamento rural no país é necessário pensar em sistemas alternativos, tanto no acesso à água tratada quanto na coleta e tratamento dos esgotos, em operação conjunta com as comunidades.

“Então, o grande desafio nessas áreas é pensar qual é a melhor solução do ponto de vista técnico, econômico e cultural de cada uma dessas regiões. É importante lembrar também que, muitas vezes, é nessas áreas rurais em que a gente tem o início das nascentes dos rios, por isso da importância também da do esgotamento sanitário nessas áreas, mesmo que com soluções individuais, para que haja a preservação ambiental e também a saúde e qualidade de vida da população que vive nessa área rural”, explica. 

Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil. Foto: Comunicação Trata Brasil

Outro ponto central é o financiamento e a falta de estrutura adequada. As políticas públicas ainda priorizam as áreas urbanas das cidades, enquanto o meio rural recebe menos recursos, sem cobertura de operação e manutenção. O resultado disso tudo são sistemas incompletos ou que deixam de funcionar a médio e longo prazo. Soma-se a isso a ausência de dados confiáveis, o que dificulta o planejamento. 

“Hoje, esse ainda é um grande desafio do Brasil: ter dados sobre o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário nas áreas rurais, além da presença ou não de banheiros nas residências. Por isso, temos trabalhado para que o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico passe a incluir essas áreas e detalhar melhor a realidade dessas localidades. Entendemos que a política pública precisa ser construída com base em fatos e dados confiáveis, para que as soluções sejam desenhadas de forma mais realista possível”, afirma Pretto.

Para Flávia Miranda, as condições locais também pesam. Segundo ela, o estado possui comunidades espalhadas por todo o território, com diferentes níveis de acesso e condições geográficas distintas, o que torna difícil definir um diagnóstico fechado neste momento. A diversidade entre regiões, como o litoral e o semiárido, exige soluções específicas, e o levantamento completo dessas áreas ainda está em andamento.

“Quando a gente pensa no estado do Piauí, há comunidades rurais espalhadas por todo o território. Por isso, é difícil definir com precisão qual é o desafio neste momento, porque ainda estamos em fase de cadastramento. Hoje, estamos identificando todas as comunidades, onde elas estão localizadas e quais irão entrar na nossa operação. Eu realmente preciso concluir esse estudo para dimensionar o tamanho desse desafio”, explica. 

E por que isso é importante?

Saneamento, como já dito pela presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, é também saúde. Na comunidade do entorno do Açude Caldeirão, em Piripiri, que mostramos aqui no início desta reportagem, a relação entre água, saneamento e saúde evidencia a importância e a urgência desse debate.

Comunidade Caldeirão, vista de cima. Foto: Kevin Oliveira / Ocorre Diário

Um estudo conduzido pela farmacêutica Adriana Honorato, em 2020, fez uma análise da água consumida pela população e identificou a presença de coliformes totais e Escherichia coli (microrganismos associados à contaminação fecal) em diferentes pontos de coleta. O dado mais grave: 80% das amostras estavam contaminadas e impróprias para consumo humano, resultado que os autores relacionam a falhas no tratamento e na distribuição da água. Nesse cenário, a água deixa de ser garantia de vida e passa a carregar um risco invisível, abrindo caminho para doenças de veiculação hídrica.

A comprovação científica de Adriana só reafirma aqui o que os moradores da comunidade já sabem há décadas: água boa para beber no Caldeirão, só comprando ou buscando em poços e olhos d’água. E esse quadro não é isolado. Outros estudos ampliam essa relação e mostram que o problema atravessa territórios.

Uma pesquisa em comunidades rurais do Piauí, coordenada pela professora Cynthia Raquel do Nascimento, aponta que a falta de saneamento e de controle da qualidade da água expõe a população a doenças como diarreias, disenterias, hepatites e cólera, associadas à ingestão de água contaminada. Entre o açude, os poços e as casas, o que se revela é um mesmo fio: onde falta saneamento é sinônimo de doença.

Soluções simples, para problemas complexos

Foi pensando nesses desafios e na necessidade cada vez mais urgente de acesso à água potável nas comunidades rurais, que um grupo de pesquisadores desenvolveu um projeto a partir de uma ideia simples, mas com aplicação prática direta: criar um sistema de tratamento de água que possa ser usado fora dos grandes centros, especialmente em comunidades com pouco acesso a saneamento. 

A proposta utiliza um processo chamado fotocatalítico, que usa a luz solar e materiais desenvolvidos em laboratório para remover impurezas da água. “A gente tem a proposta de desenvolver um sistema fotocatalítico real e projetar um modelo que trate a água utilizando os semicondutores que desenvolvemos no laboratório”, explica Renato Pereira de Sousa, mestre e doutorando em química pelo Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da Universidade Estadual do Piauí. 

Renato é pesquisador na área ambiental e desenvolve seu trabalho desde o mestrado, hoje no doutorado, com foco no tratamento de água. Ele atua em um laboratório vinculado à universidade, onde desenvolve o projeto “Sistema de Tratamento Fotocatalítico de água voltado à desinfecção da água armazenada em cisternas da zona rural do Semiárido Brasileiro”. O projeto, que teve início em 2025 e é coordenado pelo professor Geraldo Eduardo, foi contemplada com R$ 25 mil pelo edital Uespi Tech II para desenvolvimento dessa tecnologia sustentável e de baixo custo para melhorar a qualidade da água consumida por famílias em comunidades rurais.

O sistema, que foi pensado para funcionar em contextos rurais, pode ser acoplado a reservatórios como cisternas ou caixas d’água, comuns nessas regiões. O funcionamento é contínuo: a água passa pelo sistema, é tratada e retorna ao reservatório. 

“É como o processo de fotossíntese das plantas, que depende da luz do sol para acontecer. A gente usa esse mesmo princípio no laboratório. Desenvolvemos materiais semicondutores que aproveitam a luz solar para serem ativados. A partir dessa ativação, esses materiais promovem reações que degradam poluentes e eliminam microrganismos, como bactérias, fungos e até vírus. São materiais feitos, em geral, a partir de metais como cobre, titânio e zinco, capazes de transformar a energia da luz em um processo de limpeza da água”, explica Renato. 

O pesquisador conta ainda que atualmente existem muitos estudos que aplicam esses semicondutores para degradar poluentes orgânicos e eliminar bactérias da água. Esses estudos mostram que esse processo pode chegar a cerca de 99,9% de remoção desses contaminantes. “Além disso, essa degradação não gera substâncias nocivas, o que permite que a água saia com um nível de pureza muito próximo do ideal”, finaliza. 

Esse tipo de solução se conecta diretamente com os desafios do saneamento rural. Em muitos desses lugares, a água vem de poços, chuva ou carro-pipa e pode conter microrganismos nocivos. O sistema proposto atua justamente nesse ponto, buscando melhorar a qualidade da água antes do consumo.

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