
Sobre política, memória, afetos e a difícil tarefa de continuarmos humanos.
Por Mallu Mendes – Mestranda em Comunicação- UFPI e Artista performática
O que fica quando ocupamos as ruas? O que move uma multidão? O que queremos quando decidimos interromper o cotidiano de uma cidade para dizer que alguma coisa precisa mudar? E, sobretudo, o que queremos colorir nas ruas de Teresina?
São perguntas que me atravessam quando penso na experiência de caminhar entre milhares de pessoas. Talvez porque uma manifestação nunca seja apenas uma manifestação. Há sempre muitas outras coisas acontecendo dentro dela. Há memórias sendo revisitadas, gerações se encontrando, indignações que encontram palavras e outras que ainda não sabem como se expressar.
Há desejos que brotam de dentro para fora, como sementes espalhadas pelo chão. E talvez seja justamente essa a potência de uma multidão: transformar inquietações individuais em possibilidades coletivas, fazendo da rua um território onde também se pode imaginar uma política do bem viver.
Em 2019, estudantes, trabalhadores tomaram as ruas de Teresina. Paralisaram a cidade, questionaram estruturas e desafiaram a ordem estabelecida. Era como observar um imenso formigueiro humano, mas não daqueles que caminham sem direção, mas como quem rompe as opressões e grita a importância dos Direitos Humanos do acesso as políticas públicas. Havia uma organicidade pulsante, uma multiplicidade de vozes, inquietações e desejos que ultrapassavam as reivindicações imediatas.
Naquele movimento, as questões sobre transporte, educação e direitos se misturavam a perguntas muito maiores: a quem pertence a cidade? Quem pode circular por ela? Quem tem o direito de interromper sua rotina? Quem pode reivindicar outro futuro?
E, como tantas vezes acontece quando a juventude e trabalhadores se rebela contra aquilo que parece naturalizado, vieram também os rótulos. Vândalos. Desordeiros. Pessoas que estariam atrapalhando a cidade.
Mas o que significa atrapalhar uma cidade? Interromper o trânsito ou interromper o silêncio diante da desigualdade? Por que a cidade parece tão incomodada quando aqueles que diariamente enfrentam suas dificuldades resolvem tornar esse incômodo visível?
Os corpos que pulsam revoluções são, muitas vezes, os mesmos que permanecem invisíveis no cotidiano. São as bichas, as mulheres negras, as juventudes periféricas, os trabalhadores e trabalhadoras das jornadas exaustivas, as pessoas que carregam nas costas o peso de uma cidade que nem sempre as reconhece. São vidas atravessadas por tantas lidas difíceis, mas também por saberes, informações, memórias e uma consciência política que não precisa nascer nas universidades ou nas redes sociais para existir. Há quem não tenha tempo de acompanhar os debates da internet porque a urgência é outra: escolher entre comer, pagar o aluguel ou manter a internet funcionando. Há quem passe o dia inteiro trabalhando e ainda precise calcular se o dinheiro será suficiente para a passagem de ônibus do dia seguinte. E quem disse que esses corpos não produzem pensamento político? Quem disse que não compreendem as estruturas que os oprimem?
Talvez conheçam a desigualdade não apenas pelos livros, mas pela experiência cotidiana de sobreviver a ela. E é justamente dessa experiência que também nasce a revolta, a indignação, a recusa em aceitar que viver seja apenas sobreviver. A raiva de existir à margem pode se transformar em protesto coletivo, em desejo de pertencimento, em luta pelo direito de viver dias melhores. Porque esses corpos não querem apenas resistir, querem viver, amar, dançar, circular pela cidade, produzir arte, descansar e experimentar a alegria sem que ela seja um privilégio.
E talvez seja isso que tanto incomode: corpos historicamente empurrados para as margens que ousam ocupar o centro, reivindicar visibilidade e afirmar que também têm direito à política do bem viver. Mas quem se incomoda com um corpo que deseja viver? Quem teme uma bicha que dança, uma mulher negra que ocupa a rua, uma trabalhadora que questiona, uma juventude periférica que transforma sua indignação em poesia? Talvez o que incomode não seja o protesto em si, mas a possibilidade de que aqueles que sempre foram tratados como invisíveis descubram, juntos, a potência de transformar a cidade. Porque a revolução também pulsa nesses corpos que, mesmo atravessados pela dureza da vida, insistem em dizer: não queremos apenas sobreviver às estruturas que nos marginalizam. Queremos transformar essas estruturas para que a vida, em toda a sua diversidade, possa finalmente acontecer.
Talvez porque uma manifestação revele aquilo que o cotidiano tenta esconder
Sete anos depois, em 2026, uma nova multidão ocupa as ruas de Teresina. Outros tempos, outras urgências, outras formas de mobilização. Mas arrisco dizer que muitas das inquietações continuam sendo as mesmas, assim como muitos dos corpos que, há sete anos, já questionavam as estruturas da cidade, da política e da sociedade. Talvez o tempo tenha modificado as formas de organização, mas não tenha sido suficiente para transformar as razões que nos fazem retornar às ruas.
Quem é essa juventude que insiste em ocupar as ruas? Quem são os trabalhadores e trabalhadoras que, mesmo atravessados pelo cansaço de suas jornadas, encontram forças para caminhar coletivamente? O que faz tantas pessoas, com histórias e realidades diferentes, reconhecerem umas nas outras a possibilidade de construir dias melhores? O que nos faz continuar questionando estruturas que parecem se reorganizar para permanecer quase sempre as mesmas?

Desta vez, a mobilização em defesa de Lula e do fortalecimento da democracia também me provocou a pensar sobre o significado de retornar às ruas. Porque defender a democracia não pode ser apenas defender um governo, uma liderança ou um projeto político. É também perguntar que democracia estamos construindo, quem consegue participar dela e quais corpos continuam tendo que lutar pelo direito de existir, circular, falar e serem reconhecidos.
A internet agora atravessa esses corpos, convoca encontros, amplia narrativas e disputa sentidos. Há uma nova camada de organização política, circulação de informações e produção de imagens. Existe também uma vontade quase permanente de registrar, fotografar, filmar, compartilhar e mostrar que estivemos ali. Como se a experiência precisasse necessariamente de uma imagem para ser reconhecida para que o outro se afete. Como se aquilo que não foi fotografado corresse o risco de não ter acontecido. Em meio à multidão, parecia existir também uma urgência de dizer: eu estava aqui, eu participei, eu também faço parte dessa história, eu também estou revolucionando alguma coisa.
E me pergunto se essa necessidade de mostrar não revela também uma contradição do nosso tempo. Vamos às ruas para denunciar dores coletivas, questionar desigualdades e reivindicar transformações, mas, ao mesmo tempo, somos atravessados por uma lógica que nos convida permanentemente a transformar nossa própria presença em imagem. Será que estamos apenas registrando a revolução ou também tentando construir uma imagem de nós mesmos como sujeitos revolucionários? Em que momento a experiência política passa a disputar espaço com a necessidade de demonstrar publicamente nosso engajamento?
Esses pensamentos me atravessaram porque são justamente os corpos que vivem a invisibilidade, a precariedade e as dificuldades de acesso às políticas públicas que também decidirão os rumos das eleições. São corpos exaustos dos doutores da revolução, dos discursos cuidadosamente elaborados, das palavras perfeitas e das imagens impecáveis que, muitas vezes, não conseguem alcançar a realidade de suas existências. Porque, quando essas pessoas se olham no espelho, encontram suas próprias imagens marcadas pelo cansaço, pela sobrevivência cotidiana e pelos sonhos que precisaram ser guardados para que a vida pudesse continuar. São corpos atravessados por violências históricas, por ausências e por promessas que nem sempre se transformaram em direitos. E talvez estejam cansados não da política, mas de uma política que insiste em falar sobre suas dores sem necessariamente escutá-las para acalenta-las na prática. De que adianta uma revolução esteticamente perfeita se ela não consegue alcançar a vida de quem precisa escolher diariamente entre sobreviver e sonhar? Talvez o maior desafio seja compreender que esses corpos não precisam de quem lhes ensine a revolucionar, mas de quem reconheça que resistem todos os dias, mesmo quando ninguém está olhando, fotografando ou aplaudindo estamos ali sendo corpos políticos.
Não questiono a importância do registro. Pelo contrário, registrar também é construir memória, produzir documentos históricos e disputar narrativas sobre acontecimentos que, tantas vezes, são silenciados ou distorcidos e é justamente pelo registro da foto e vídeos que sabemos o impacto da Ditadura Milita e Covid-19 nas nossas vidas e de tantas outras mazelas que nossa massa teve que lutar e resistir. As imagens podem ampliar vozes e fazer chegar a outros lugares aquilo que acontece nas ruas. Mas me pergunto sobre o que permanece fora do enquadramento. Quantos encontros não cabem nas fotografias? Quantas histórias desaparecem quando a câmera procura apenas a imagem perfeita da multidão? Quantos corpos continuam invisíveis mesmo estando presentes em um mar de gente?
Porque, enquanto algumas lentes procuravam a grandiosidade da manifestação, havia uma outra cidade acontecendo dentro daquela mesma cidade. Havia a musicalidade que surgia espontaneamente entre as pessoas, a poesia que não precisava dos carros de som, a arte que escapava das estruturas previamente organizadas. Havia trabalhadores, estudantes, artistas e tantas outras pessoas que não estavam necessariamente preocupadas em produzir uma imagem de si, mas em experimentar, ainda que por algumas horas, a possibilidade de estar juntas e de alguma forma se afetando pelo encontro com o outro. Só lembrando que também tive a oportunidade de ver, neta encontrando avô no meio da multidão tendo um abraço de alegria e amore desse encontro, de ver amigas e amigos com seus filhos e filhas, de encontrar os meus afetos pela própria energia dos encontros e sei que cada ciclo encontrou os seus porque encontrei os meus sem uso de tecnologia, mas caminhando entre as pessoas e encontrando.
Havia um mar de gente que, mesmo fora dos enquadramentos mais compartilhados, produzia sentidos, afetos e formas próprias de participação política. A arte não pedia autorização para acontecer e só estava acontecendo de forma concomitante. A musicalidade não dependia de uma programação ou de uma fala de ordem. A poesia não precisava de um palco ou de plateia. Ela surgia dos corpos, das vozes, das pequenas intervenções e dos encontros que atravessavam a multidão. E talvez fosse justamente ali, naquilo que não havia sido previamente organizado, que a rua revelava uma de suas maiores potências: a capacidade de produzir vida coletiva para além das estruturas que tentam conduzi-la.
Talvez seja justamente aí que resida uma das maiores potências políticas das ruas: naquilo que não conseguimos transformar em conteúdo e que de fato afeta para uma virada de voto pela democracia. No encontro inesperado, na conversa que atravessa gerações, no corpo que dança sem perceber que está sendo observado, na palavra de alguém desconhecido que nos faz reconhecer uma dor que também é nossa. Existe uma dimensão da experiência coletiva que nenhuma fotografia ou vídeo consegue traduzir completamente.
E isso não significa estabelecer uma oposição entre a rua e a internet, como se uma fosse legítima e a outra superficial. As redes também são territórios de disputa política, de construção de pertencimento e de mobilização. Mas precisamos questionar o que acontece quando a visibilidade se torna quase uma condição para o reconhecimento da participação. Afinal, quem não aparece nas imagens também constrói a história. Quem não publica também resiste. Quem não ocupa o centro do enquadramento também movimenta a multidão
E foi justamente na madrugada que algo me atravessou profundamente. Caminhei pelas ruas de Teresina acompanhada de mais três artistas, seguindo em direção a um ponto cultural. E, naquela caminhada, não havia espaço para o medo. Não porque os perigos da cidade tivessem desaparecido, mas porque os encontros pareciam maiores do que qualquer ameaça. Havia uma cidade que continuava viva depois que a multidão havia voltado para casa. Havia arte, conversas, afetos e pessoas para quem a rua não era apenas um lugar de passagem, mas também lugar de permanência, de sobrevivência e, muitas vezes, a própria casa. E foi nesses encontros que ouvi uma das manifestações mais bonitas daquela noite: “Lula vai ser eleito com o meu voto também.” Não era uma frase que vinha dos carros de som, nem de um discurso organizado. Era a expressão de alguém que, mesmo atravessado pelas durezas da vida, reivindicava seu lugar na construção da democracia. E aquilo me fez pensar sobre o afeto como possibilidade política. Sobre a importância de reconhecer humanidade onde tantas vezes fomos ensinados a enxergar apenas perigo, abandono ou invisibilidade. Porque o medo também pode ser uma construção que nos afasta dos encontros, que transforma pessoas em ameaças e nos impede de reconhecer histórias que existem para além das nossas próprias experiências.
Não se trata de romantizar a precariedade, a ausência de moradia ou as violências que atravessam as ruas, mas de não permitir que essas condições desumanizem quem as vive. Nesta madrugada, compreendi também que estar na mesma trincheira não significava compartilhar as mesmas condições de vida e percepções, mas reconhecer que a democracia também precisa alcançar aqueles que, mesmo sem ter um teto para voltar, continuam acreditando que seu voto, sua voz e sua existência importam e pra esse lugar que talvez devemos fazer o religare para virar as eleições. Talvez o maior gesto político da massa na caminhada tenha sido justamente esse: não deixar que o medo nos impedisse de encontrar o outro na massa e nas nossas caminhadas das nossas trajetórias, de escutá-lo e de reconhecer que, antes de qualquer bandeira, existe uma humanidade que não podemos perder e que cada um de nós podemos acolher e fortalecer pra que possamos garantir juntas e juntos a nossa democracia.
Talvez seja por isso que precisamos continuar ocupando as ruas: para falar das nossas dores, mas, sobretudo, para que elas sejam escutadas, acalentadas e acolhidas. Porque nem toda dor precisa se transformar em palavra de ordem para ser reconhecida, assim como nem toda luta cabe em um discurso político. Há dores que precisam de escuta, de presença, de afeto e de políticas públicas que transformem o acolhimento em direito. Ir às ruas também é reivindicar o direito de não sofrer em silêncio, de não ter nossas existências reduzidas à precariedade e de encontrar no outro a possibilidade de continuar.
Talvez a democracia comece justamente nesse reconhecimento: quando compreendemos que as dores do outro não podem permanecer indiferentes a nós e que nenhuma transformação será verdadeiramente coletiva enquanto houver corpos obrigados a gritar para serem ouvidos, quando tudo o que desejam é viver com dignidade. Porque ocupar as ruas não é apenas dizer que resistimos, mas afirmar que nossas vidas merecem mais do que a sobrevivência. Merecem cuidado, pertencimento, alegria e a possibilidade de sonhar novamente.
Foi diante dessas inquietações que decidi registrar quando fosse possível, mas, sobretudo, me permitir viver aquilo que acontecia diante de mim. Mais do que procurar o melhor enquadramento, comecei a me perguntar sobre a minha própria passada no meio da rua na massa. Qual era o meu encontro com aquela rua que, sete anos antes, também havia me mobilizado? O que ainda pulsava em mim daquele tempo? Que inquietações permaneciam no meu corpo, mesmo depois de tantos anos?
Porque não faria sentido retornar às ruas apenas para anunciar algo novo se eu ainda não tivesse acessado aquilo que, no passado, me fez sair de casa, ocupar a cidade, não aceitar o silêncio e, como na canção de Torquato Neto, desafinar o coro dos contentes.
Talvez meu reencontro com as ruas de Teresina fosse também um reencontro com as minhas próprias memórias políticas e afetivas. Não queria apenas reconhecer a multidão, mas compreender o que havia permanecido em mim daquela experiência de sete anos atrás. Que parte daquela juventude ainda caminhava comigo? O que havia mudado nas minhas formas de resistir, de questionar e de acreditar na possibilidade de transformação? E, principalmente, como continuar reivindicando mudanças nas estruturas sem deixar que a própria experiência de estar nas ruas se tornasse apenas mais uma imagem de participação política?
Talvez retornar às ruas não seja simplesmente repetir um gesto político de sete anos atrás, mas descobrir se ainda somos capazes de nos inquietar diante das mesmas injustiças. Se ainda conseguimos transformar nossas indignações em encontros, nossos afetos em resistência e nossa presença em compromisso coletivo. Afinal, de que adiantaria estar novamente entre milhares de pessoas se eu já não conseguisse escutar aquilo que um dia me fez caminhar?
E talvez seja essa a questão que mais me atravessa: não quero apenas lembrar que estive nas ruas em 2019 e que retornei em 2026. Quero compreender o que aconteceu comigo entre essas duas caminhadas. O que o tempo transformou, o que as lutas ensinaram e, sobretudo, o que ainda permanece vivo em mim para que eu continue escolhendo não silenciar.
Porque desafinar o coro dos contentes não é apenas levantar a voz diante daquilo que nos incomoda. É também recusar a acomodação, inclusive a nossa, e permitir que a rua continue nos provocando, nos deslocando e nos transformando.
A rua é um convite. Um convite para sair de nós mesmos, para reconhecer o outro, para compreender que nossas dores não são exclusivamente individuais e que nossos desejos de dias melhores também podem ser compartilhados. Um convite para perceber que a política não acontece somente nos espaços que estamos, mas em todos os lugares e corpos.
A rua é um corpo vivo político. A multidão não precisa caber em uma fotografia ou vídeo para existir politicamente. E talvez a maior força de um ato esteja justamente naquilo que nenhuma câmera consegue capturar: a possibilidade de sairmos dele não apenas com imagens de que estivemos juntos, mas transformados pela experiência de termos estado juntos e que vai sendo fotografado e gravado pelas nossas memorias.
Porque a rua não termina quando a manifestação acaba. Ela continua em nós, nos encontros que carregamos, nas perguntas que permanecem e na insistência coletiva de acreditar que outros mundos ainda são possíveis e na internet que contamos nosso fragmento de olhar e afetações.
E, se há sete anos fui às ruas porque algo em mim se recusava a silenciar, talvez hoje eu retorne porque compreendo que resistir também exige escutar, reencontrar, sentir e reconhecer aquilo que continua pulsando e que continuo a me recusar a ser silenciada.
Afinal, não quero apenas passar pela rua. Quero compreender o que a rua faz passar por mim e que histórias meu corpo pode construir nas ruas em prol da coletividade.
OS ÔNIBUS AINDA NOS MOVEM: DE 2016 A 2026, A LUTA NÃO SAIU DAS RUAS
É impossível falar das ruas de Teresina sem falar dos ônibus. Eles nos moviam em 2016, nos mobilizavam em 2019 e continuam atravessando nossos corpos e nossas lutas em 2026. Talvez não estivessem escritos nos cartazes daquela manifestação em defesa da democracia e de Lula, talvez não fossem anunciados nos carros de som, mas estavam ali, na vida concreta de quem precisava chegar ao ato e, principalmente, de quem não sabia como voltar para casa.
E isso me inquieta. Porque o silêncio desses sete anos não significou ausência de militância, de indignação ou de resistência. Talvez tenha sido também um cansaço coletivo. Um esgotamento de corpos que continuam enfrentando as mesmas dificuldades, repetindo as mesmas reivindicações e esperando por transformações que parecem nunca alcançar completamente o cotidiano. Não deixamos de lutar porque os problemas desapareceram. Talvez tenhamos nos cansado de precisar lutar tantas vezes pelo que já deveria ser um direito.
Em 2026, voltamos às ruas para defender a democracia, mas os ônibus também estavam naquela manifestação, mesmo quando não eram a pauta central. Estavam na ausência de transporte para voltar para casa, na preocupação com o horário, na distância entre os bairros e o centro, na impossibilidade de permanecer até o fim. Porque quem depende do transporte público sabe que a cidade tem limites que não aparecem nos discursos políticos. E esses limites têm endereço, classe social, cor, território e horário.
Como não falar dos ônibus quando queremos uma cidade ocupada pelo povo? Como não questionar o transporte quando a própria participação política depende das condições de deslocamento? De que adianta convocarmos a população para ocupar as ruas se não garantimos que ela possa chegar e voltar com dignidade?
Talvez seja essa uma das maiores contradições que precisamos enfrentar também dentro da nossa militância. Não podemos defender a democracia apenas nos grandes atos e deixar de problematizar as estruturas que impedem o povo de viver plenamente essa mesma democracia. A luta pelo transporte não é uma pauta menor diante das grandes disputas nacionais. É uma luta pelo direito à cidade, pela permanência da juventude nos espaços culturais, pelo tempo de vida dos trabalhadores e pela possibilidade de transformar a ocupação das ruas em uma experiência cotidiana, não apenas excepcional.
E não quero acreditar que nos acostumamos. Prefiro pensar que ainda estamos tentando reorganizar nossas forças, porque há uma diferença entre o silêncio e a desistência. Há indignações que continuam pulsando mesmo quando já não conseguem reunir multidões. Há militâncias que seguem acontecendo na sobrevivência diária, nos bairros, nas periferias e nas pequenas resistências de quem insiste em atravessar Teresina apesar de todos os obstáculos.
Os ônibus ainda nos movem, inclusive quando não passam. Movem nossas indignações, nossos atrasos, nossas ausências, nossos encontros interrompidos e a memória de uma juventude que já dizia, há dez anos, que a cidade precisava pertencer a todos.
E talvez seja hora de fazer essa pergunta também a nós, que retornamos às ruas em 2026: o que faremos com as lutas que ficaram pelo caminho? Porque não basta celebrar que voltamos a ocupar Teresina. Precisamos reconhecer as razões pelas quais tantos corpos continuam tendo dificuldades para ocupá-la.

Queremos uma cidade pintada de gente, mas gente precisa de ônibus para chegar, de condições para permanecer e do direito de voltar para casa.
A democracia que defendemos nas ruas também precisa passar pelas paradas de ônibus, entrar nos bairros, alcançar as periferias e reconhecer o tempo, o cansaço e a dignidade de quem movimenta esta cidade todos os dias.
Porque, no fim daquela manifestação, quando a multidão se dispersou, uma das nossas antigas reivindicações continuava ali: como voltar para casa?
E talvez essa pergunta, tão simples e tão política, seja a prova de que a luta pelo transporte nunca deixou de nos acompanhar. Em 2026, também fomos às ruas pelos ônibus. Mesmo quando não dissemos isso em voz alta.
O QUE QUEREMOS QUANDO VAMOS ÀS RUAS?
Essa talvez seja a pergunta que mais me interessa.
O que queremos quando vamos às ruas?
Queremos ser ouvidos? Queremos ser vistos? Queremos pressionar, defender projetos políticos, denunciar injustiças, celebrar conquistas? Ou queremos também experimentar, ainda que por algumas horas, a possibilidade de viver em uma cidade diferente?
Talvez tudo isso aconteça ao mesmo tempo.
Uma manifestação carrega reivindicações concretas, mas também desejos que nem sempre conseguem ser traduzidos em propostas, documentos ou palavras de ordem.
Queremos direitos, mas também queremos reconhecimento. Queremos políticas públicas, mas também queremos pertencimento. Queremos mudanças nas estruturas, mas talvez estejamos buscando algo ainda mais profundo: a possibilidade de construir relações menos violentas, menos solitárias e mais coletivas.
Em um ato em defesa de Lula e do fortalecimento da democracia, vi muito mais que uma manifestação política. Vi uma cidade atravessada por afetos, contradições, memórias e possibilidades.
Defender Lula, para muitos dos que estavam ali, significava defender a continuidade de um projeto político e a possibilidade de acreditar na transformação social. Mas a potência daquele encontro não se encerrava em uma liderança, em um partido ou em um discurso.
Ela estava também nas pessoas, nas suas histórias, nos seus desejos e na capacidade de transformar a rua em espaço de participação.
E isso me leva a outra pergunta: o que fazemos com a democracia depois que a manifestação termina?
Porque defender a democracia não pode significar apenas protegê-la nos momentos de ameaça. É preciso perguntar que democracia estamos construindo no cotidiano, nos bairros, nas escolas, nos ônibus, nas instituições e nas relações que estabelecemos uns com os outros.
Não basta defender o direito de ocupar a rua. É preciso defender o direito de viver plenamente a cidade.
OS MICROENCONTROS E OS MACROENCONTROS: AQUILO QUE ME ATRAVESSA
Talvez o que mais me atravesse em uma manifestação não seja apenas a dimensão da multidão, mas aquilo que acontece dentro dela.
Os microencontros e os macroencontros.
O macro está na multidão, no movimento coletivo, na força política de milhares de pessoas que compartilham uma reivindicação. O micro está na delicadeza de um gesto, na conversa inesperada, no abraço, no sorriso, no olhar de alguém que reconhece outro alguém em meio à massa humana.
Gosto de ler os cartazes.
Há algo de profundamente poético e político na maneira como cada pessoa escolhe escrever sua indignação, seu desejo ou sua esperança em um pedaço de papelão. Eu gosto também de no meio da massa de gente encontrar os meus de forma espontânea e sabemos de alguma forma estamos conectadxs.
Alguns provocam risos. Outros incomodam. Alguns são irônicos, outros carregam dores que nenhuma palavra de ordem consegue traduzir.
Penso que os cartazes são pequenas autobiografias políticas. Cada frase revela uma maneira de compreender o mundo e de desejar sua transformação.
Gosto também de observar os corpos, os deslocamentos, as pausas, os encontros que acontecem por acaso.
Quem abraça quem? Quem dança? Quem permanece em silêncio? Quem inventa uma música? Quem segura um cartaz como quem segura a própria história? Quem chora…. sim há lagrimas como falas políticas na massa.
Há uma pulsão de movimento que não se limita ao deslocamento físico. São corpos que movimentam ideias, memórias, afetos e possibilidades de existência.
Cada pessoa parece carregar uma cidade dentro de si, com suas urgências, contradições e sonhos.
E talvez seja justamente isso que as grandes imagens de uma manifestação não consigam mostrar, mas também nos registro feitos afeto nosso ser… que contradição.
A fotografia aérea revela a dimensão da multidão, mas dificilmente alcança a delicadeza de um encontro, a potência de um gesto ou a história de quem saiu de casa porque ainda acredita que alguma coisa pode mudar, mas nos atravessa de uma forma dizendo eu tava ali no meio da massa sendo povo, sendo um ser coletivo e isso emociona porque deixamos de lado nossas individualidades para sermos povo com desejos coletivos.
O macro nos mostra a força coletiva. O micro nos revela por que essa força existe em cada um de nós.
Quantas manifestações acontecem dentro de uma única manifestação? Quantas histórias se cruzam sem jamais serem contadas? Quantas pequenas revoluções acontecem enquanto estamos preocupados em contar quantas pessoas estiveram presentes?
A ARTE QUE NASCE DO CHÃO: BATUQUES, POESIAS E PEQUENAS REVOLUÇÕES
Em meio à multidão, a arte apareceu.
Não necessariamente aquela programada nos carros de som, organizada pelos palcos oficiais ou anunciada pelos microfones.
Era a arte que brotava do povo.
Os batuques espalhados, os ritmos que se encontravam, as vozes que inventavam melodias, as poesias que pareciam nascer do próprio chão. Corpos que dançavam, mãos que marcavam o tempo, gestos que transformavam a manifestação em uma experiência estética e política.
Havia uma musicalidade que não dependia dos carros de som. Uma poesia que não precisava de palco. Uma performance que não exigia autorização.
E havia algo profundamente bonito nisso: a arte não estava apenas acompanhando a manifestação. Ela também estava produzindo outras maneiras de manifestar.
Talvez porque a arte tenha essa capacidade de dizer aquilo que o discurso político, sozinho, nem sempre consegue alcançar.

Um batuque pode reunir pessoas que não se conhecem. Uma poesia pode interromper o barulho e provocar silêncio. Uma dança pode transformar o corpo em território de liberdade.
E o que queremos colorir nas ruas de Teresina?
Queremos apenas bandeiras, faixas e cartazes? Ou queremos também que as ruas sejam ocupadas pela diversidade de expressões culturais que a própria cidade produz?
Quero imaginar uma Teresina em que a arte não apareça somente em datas comemorativas ou eventos programados. Uma cidade em que os artistas possam existir nas praças, nos becos, nas esquinas, nas periferias e nos espaços que ainda lhes são negados.
Uma cidade onde a poesia possa nascer do chão e não precise pedir licença para ser escutada.
Porque a arte também reivindica o direito à cidade.
E talvez uma das formas mais potentes de democratizar Teresina seja permitir que seus habitantes não apenas circulem por ela, mas também a inventem, a ocupem e a transformem culturalmente.
O que queremos colorir nas nossas ruas? Talvez aquilo que ainda não conseguimos viver plenamente: liberdade, pertencimento, diversidade, cuidado, encontro e o direito de criar.
DOS CARROS DE SOM ÀS MICRORRODAS DE DIÁLOGO
Há algo que me chama atenção na organização de uma manifestação.
Os carros de som ocupam uma posição importante. Deles partem discursos, palavras de ordem, orientações e narrativas que procuram construir uma unidade política.
Mas a manifestação não acontece somente de cima dos carros.
Ela também acontece ao redor deles, entre as pessoas, nas pequenas rodas que se formam espontaneamente.
Há microrrodas de diálogo que talvez nunca sejam percebidas por quem observa a multidão de longe.
Pessoas discutem política, discordam, compartilham experiências, lembram acontecimentos, questionam decisões, falam da cidade, do transporte, da educação, do trabalho e da vida.
E essas conversas também são formas de participação política.
Talvez uma das perguntas mais importantes seja: estamos indo às ruas apenas para ouvir ou também para escutar uns aos outros?
Porque uma democracia que fala muito, mas escuta pouco, corre o risco de reproduzir nas ruas as mesmas hierarquias que pretende questionar.
Quem tem acesso ao microfone? Quem organiza a fala? Quem define as pautas? Quais vozes são amplificadas e quais permanecem diluídas na multidão?
Não se trata de negar a importância das lideranças ou da organização coletiva. Trata-se de reconhecer que a democracia também precisa acontecer na circulação da palavra.
Há revoluções que começam nos grandes discursos. Mas há outras que talvez nasçam em uma conversa entre duas pessoas que nunca haviam se encontrado.
As microrrodas de diálogo também são pequenas rodas de revolução.
Porque transformar o mundo exige organização, mas exige também a capacidade de ouvir, discordar, acolher e construir sentidos coletivamente.
E talvez seja esse um dos maiores desafios de ocupar as ruas: transformar a multidão em espaço de encontro, e não apenas em uma reunião de pessoas que caminham na mesma direção.
A MULTIDÃO QUE VAI ÀS RUAS E A FOTOGRAFIA: ENTRE O REGISTRO E A URGÊNCIA DE LUTAR
É estranhamente assustador olhar para as fotografias das multidões vestidas de verde e amarelo, mobilizadas pelo bolsonarismo na nossa capital, circulando nas redes sociais como se estivéssemos diante de uma competição para saber quem consegue colocar mais gente nas ruas. As imagens se multiplicam, os enquadramentos disputam grandezas, os números se tornam argumentos políticos e, de repente, parece que a democracia também precisa ser medida pela quantidade de corpos que cabem numa fotografia.
Logo depois, veio o ato da unidade, coerente, tomado pelo vermelho e também verde e amarelo, com uma multidão que triplicar o número de pessoas. E confesso que existe um alívio em olhar aquelas imagens. Um alívio que não nasce simplesmente da possibilidade de dizer que éramos mais, mas de perceber que ainda existe gente disposta a sair de casa, ocupar as ruas, colocar o próprio corpo em movimento e compreender que a luta pela democracia não pode esperar.
Mas há algo que me inquieta nessa disputa de imagens: quando foi que começamos a olhar para as multidões como quem observa um placar?
A fotografia registra, produz memória, documenta a história e nos permite reconhecer a força coletiva de um povo. Mas nenhuma fotografia consegue dar conta de tudo o que acontece dentro de uma manifestação. Não registra completamente os medos, as dores, os encontros, as mãos que se procuram, os corpos cansados, as esperanças que insistem em permanecer vivas. Tampouco consegue traduzir o que significa estar ali, sabendo que não fomos às ruas apenas para aparecer em uma imagem, mas porque existe algo profundamente urgente em defender a nossa própria existência.

Ir as ruas é uma forma de tocar o dedo na ferida, é sangrar, é mostrar-se vulnerável na dor para sarar a dor e encontrar uma forma de fazer um remendo para vivermos em coletividade.
Não estamos nas ruas apenas para produzir registros. Estamos nas ruas para salvar a nós mesmos e umas às outras através das urnas. Para defender direitos, enfrentar o autoritarismo e impedir que a nossa história seja escrita pelo silêncio.
E talvez seja impossível pensar nisso sem revisitar o tempo inteiro 2019, quando uma manifestação atravessou Teresina de uma ponta à outra. Guardo essa imagem na memória não apenas pela dimensão da multidão, mas pela sensação de que a cidade inteira poderia ser atravessada pela força de um povo em movimento.
Naquele momento, caminhar também era uma maneira de dizer que a cidade nos pertencia. Que as ruas não eram apenas caminhos entre nossas casas e nossos destinos, mas territórios de disputa, de existência e de construção política.
E talvez seja exatamente isso que precisamos recuperar: a capacidade de ir de uma ponta à outra, de ocupar simultaneamente os bairros, as avenidas, as periferias, o centro e os municípios. Fazer com que a mobilização não se concentre apenas em uma grande fotografia, mas se espalhe como uma pulsação coletiva por todos os cantos e tenhamos a certeza que militamos porque de alguma forma nossos direitos ainda não foram alcançados e nem chegaram até nós e que militamos pra dizer eu tenho direito de existir e viver política do bem viver.
Porque a revolução que desejamos não pode existir somente no instante em que a câmera é levantada ou nas redes socias. Ela precisa continuar quando a manifestação termina, quando voltamos para casa, quando encontramos alguém que pensa diferente, quando defendemos um direito ameaçado, quando nos organizamos coletivamente e quando compreendemos que nenhuma transformação acontece sem a participação do povo e que a internet é um meio de comunicação que deve andar junto com a gente informando e transformando.
É também bonito de ver gente se tornando pessoas digitais e se percebendo comunicadores de informações para seus ciclos com a produção de informação sobre seu ponto de vista do momento e é nisso que nasce a comunicação popular que buscar chegar no território através da vivência.
Há uma diferença profunda entre ver uma multidão de longe e se reconhecer dentro dela.
De longe, vemos as cores, os cartazes, as bandeiras e a dimensão do encontro. De dentro, sentimos a temperatura dos corpos, ouvimos as vozes que se misturam, percebemos as diferenças que nos constituem e descobrimos que ser povo é também uma experiência de afeto, conflito, coragem e pertencimento.
Ser povo move. Move quem está dentro, move quem observa de fora e, sobretudo, inquieta quem acredita que pode decidir sozinho os destinos de uma coletividade.
Talvez por isso as fotografias sejam tão importantes, mas também tão insuficientes. Elas congelam um instante de uma luta que precisa continuar em movimento.
Não quero olhar para as imagens apenas com a satisfação de termos colocado mais gente nas ruas. Quero olhar para elas e reconhecer a responsabilidade que carregamos neste momento histórico de lutar pela democracia. Porque não basta sermos muitos em uma fotografia se não conseguirmos transformar essa presença em organização, consciência política, solidariedade e defesa cotidiana dos nossos direitos.
E, diante de tantas feridas abertas pela violência, pelo ódio, pelo racismo, pelas desigualdades e pelas tentativas de desumanização, talvez ocupar as ruas seja também uma maneira coletiva de buscar alguma cura e de lembrar que somos movimento e que podemos ser movimentos em passar nossas experiências para os outros para que continuemos a construir um mundo possível para nós mesmos.
Não uma cura que apaga as marcas da história, mas aquela que nasce quando percebemos que não estamos sozinhos. Quando nossos corpos, tantas vezes atravessados pelo medo e pelo cansaço, voltam a experimentar a potência de estar juntos e do junto em afeto.
Quero que sejamos uma multidão que não caiba apenas nas fotografias. Que atravesse a cidade inteira, que chegue aos municípios, que se encontre nas periferias, que transforme indignação em movimento e movimento em direitos.
Porque talvez a revolução comece exatamente quando deixamos de perguntar quantas pessoas aparecem na imagem e passamos a perguntar quantas vidas estamos dispostos a defender, quantas vidas estão dispostas a salvar e como vamos conseguir empretecer desconstruindo as opressões naturalizadas.
E que, daqui a alguns anos, quando revisitarmos essas fotografias, possamos dizer mais do que “eu estava lá”.
Possamos dizer: nós estávamos lá, nós nos movemos, nós lutamos e ajudamos a transformar a história.
Porque somos a própria revolução quando compreendemos que lutar também é uma forma de cuidar da vida e do coletivo na terra.
E há feridas que só começam a cicatrizar quando um povo inteiro decide não caminhar mais sozinho.
TERESINA, O QUE TE PULSA PARA SER CENÁRIO?
E Teresina?
O que te pulsa para ser cenário de tantas inquietações?
Que cidade é essa que, por vezes, parece silenciar seus próprios habitantes, mas que também se transforma quando seus corpos decidem ocupar as ruas?
Teresina não é apenas o lugar onde a manifestação acontece. É parte da própria disputa que faz história nas urnas.
Suas avenidas, praças, calçadas, becos e vielas carregam as marcas de quem pode circular, de quem é visto, de quem permanece invisível e de quem precisa reivindicar o direito de estar.
Há uma geografia política nos nossos deslocamentos. A cidade que recebe a multidão é também aquela que convive cotidianamente com desigualdades, ausências, resistências e formas extraordinárias de produzir vida.
Por isso, quando uma multidão ocupa Teresina, não estamos apenas diante de um ato político. Estamos diante de uma cidade sendo interrogada por seus próprios habitantes.
Que democracia cabe em Teresina? E em qual Teresina cabe a democracia? Quem somos nós no nosso estado?

Na cidade das grandes avenidas ou naquela que resiste nos bairros periféricos? Na cidade dos discursos oficiais ou naquela que se reinventa nas esquinas, nos terreiros, nos mercados, nos coletivos culturais e nos encontros que raramente se tornam notícia?
Que Teresina queremos construir?
Uma cidade que apenas administra seus espaços ou uma cidade que reconhece seus habitantes como produtores de cultura, memória e vida?
Uma cidade em que a juventude precise continuar interrompendo avenidas para reivindicar transporte ou uma cidade que compreenda a mobilidade como condição para o exercício de outros direitos?
Uma cidade em que a arte seja vista como adorno ou uma cidade que reconheça a criação artística como parte fundamental da experiência democrática?
Talvez a pergunta não seja apenas o que queremos fazer nas ruas de Teresina, mas o que queremos que Teresina seja para aqueles que vivem nela.
Porque uma cidade democrática não é somente aquela que permite manifestações. É aquela que consegue escutar o que seus habitantes estão tentando dizer quando vão às ruas.
E talvez seja preciso abandonar a ideia de que a cidade é apenas um cenário onde a política acontece.
A cidade também é política. Seu desenho, suas distâncias, seus transportes, seus espaços culturais e suas ausências revelam escolhas sobre quais vidas podem ocupar determinados lugares.
Quando a multidão ocupa Teresina, a cidade deixa de ser apenas concreto, trânsito e pressa. Torna-se corpo coletivo, território de disputa e possibilidade de reinvenção.
E, no fim, o que Teresina me deixou foi a esperança de que ainda somos capazes de nos encontrar, mesmo atravessados pelo cansaço, pelas ausências e pelas lutas que permanecem inacabadas. Teresina representou! Representou nos corpos que voltaram às ruas, na juventude que não silenciou, na arte que nasceu da multidão, nos afetos que atravessaram a madrugada e nas vozes que insistiram em defender a democracia. E talvez seja isso que significa esperançar: não esperar que o futuro aconteça, mas caminhar coletivamente para construí-lo, sem esquecer as dores que nos trouxeram até aqui.
Seguimos com Lula 13 no segundo turno, mas também com a certeza de que nossa luta não termina nas urnas. Porque queremos mais do que vencer uma eleição: queremos uma democracia que chegue às periferias, às paradas de ônibus, aos becos, às vielas e à vida de quem ainda precisa lutar para ser ouvido. Que nossas ruas continuem pintadas de gente, de arte, de coragem e de encontros. Que não precisemos esperar mais sete anos para reconhecer a força de estarmos juntos. E que a esperança não seja apenas aquilo que gritamos em uma manifestação nas ruas, mas aquilo que temos coragem de construir quando a multidão se conecta na internet e em casa nas nossas vidas.
“Todo corpo é político por isso empreteça para construir uma realidade que caiba no nosso sonho de sermos seres coletivos”
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