
Lançado na última quarta-feira, 26 de agosto, na Livraria Monsenhor Melo, o livro Da favela ao Alphaville, de Mãe Maria Lúcia de Iansã, é uma narrativa sobre memória, território, ancestralidade e resistência. Mais do que contar uma trajetória individual, a autora reúne em suas palavras a história de um povo e de uma comunidade enraizada na Boa Esperança, em Teresina.
Como observa o professor Solimar Oliveira Lima no prefácio, a escrita de Mãe Lúcia é uma escrevivência: sua vida aparece entrelaçada à natureza, à comunidade, à fé e às experiências daqueles que construíram sua existência naquele território. O livro nasce da oralidade e da experiência, recusando a separação entre saberes, entre corpo e território, entre o material e o espiritual.
A Boa Esperança surge, assim, não apenas como cenário, mas como fundamento da narrativa. É território de pescadoras e pescadores, oleiras e oleiros, vazanteiras e vazanteiros, lavadeiras, vaqueiros e tantas outras pessoas que aprenderam, no cotidiano, formas coletivas de sobreviver, criar e resistir. É também território de terreiros, memórias e patrimônios construídos pela própria comunidade, como o Museu Vivo da Resistência da Boa Esperança e o Memorial Casa Maria Sueli.
Da favela ao Alphaville é uma afirmação de existência. Ao revisitar sua história e a de sua comunidade, Mãe Maria Lúcia de Iansã questiona as formas de progresso que ameaçam territórios populares e os conhecimentos que insistem em invisibilizar seus sujeitos. Como escreve Solimar, “sendo deles é nossa”: a memória narrada por Mãe Lúcia também diz respeito à história de negras e negros piauienses e à luta permanente pelo direito de permanecer, viver e contar a própria história.
Você pode ler e baixar o livro gratuitamente, aqui:
Mãe Maria Lúcia e Iansã por Mãe Maria Lúcia de Iansã
Sou Maria Lúcia Oliveira Sousa. Sou filha de Dona Davina e de Seu Roxo. Mulher negra, quilombola ribeirinha do território Entre Rios Parnaíba–Poty, região de Teresina/PI e Timon/MA. Tenho 54 anos. Cabelo escuro, alguns grisalhos, cacheado na altura dos ombros. Olhos castanho-escuros, corpo mediano. Também sou o que meus pais me ensinaram. Carrego no corpo a força do território. Minha história nasce dessas e de outras águas, dessas terras e dessas gentes. Cresci ouvindo 9histórias na beira do fogo, pescando piaba com meu pai e minha mãe, vendo minhas tias e comadres lavarem roupa no rio, carregando tijolo quente nas olarias, amassando barro com as mãos, plantando nas vazantes, baiando no terreiro. Minha primeira escola foi minha mãe e meu pai. Tudo que sei, aprendi na oralidade, na prática e na repetição – tecnologias ancestrais que o nosso povo utiliza para não esquecer o que é essencial. Este livro é feito de relatos, memórias e escrevivências, minhas, de pessoas da minha família e da comunidade Boa Esperança.




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