
Reportagem: Tânia Martins | Edição: Luan Matheus Santana
Se é fato que animais interpretam bem nossas posturas , expressões, emoções, intenções e outros sentimentos, certamente os que habitam o Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí, estão muito felizes com a ampliação do seu habitat natural. No encontro entre a Caatinga e o Cerrado, o Parque guarda um patrimônio que vai muito além das formações rochosas que deram nome à unidade de conservação. São sítios arqueológicos, recursos hídricos, diferentes espécies da fauna e um conjunto de geossítios que fazem da área um território de importância ambiental, científica, cultural e turística.
A ampliação dos limites do parque, que passou a proteger 13.502 hectares, acrescenta 7.192 hectares à área anteriormente protegida. A medida atende a uma discussão que atravessa décadas e amplia o território destinado à conservação dos ambientes naturais e dos recursos existentes na região.
Os efeitos dessa proteção alcançam tanto a biodiversidade quanto as comunidades do entorno. Pesquisadores de áreas como arqueologia, biologia e geologia encontram no parque um campo de pesquisa, enquanto o turismo movimenta a economia dos municípios de Brasileira e Piracuruca. A conservação também contribui para a manutenção dos serviços ecossistêmicos dos quais dependem espécies e populações que vivem na região.
Para Waldemar Neto, diretor do Parque Nacional de Sete Cidades, a ampliação é resultado de um processo construído ao longo dos anos. “Foi uma conquista coletiva”, afirma. Para ele, o parque cumpre diferentes funções: protege a biodiversidade e o patrimônio natural, mas também oferece espaço para lazer, educação ambiental, pesquisa e geração de renda para as comunidades do entorno.

Um patrimônio que reúne história e geologia
Entre os principais atrativos de Sete Cidades estão os mais de 100 sítios arqueológicos identificados na unidade de conservação. As pinturas e inscrições rupestres registram a presença humana antiga na região e representam figuras humanas, animais e outros elementos.
O patrimônio geológico também ocupa lugar de destaque. Um inventário realizado pelos pesquisadores Larissa Sheydder Lopes, José Luis Lopes e Marcos Antônio Leite Nascimento identificou oito geossítios: Pedra da Tartaruga, Arco do Triunfo, Sítio Pequeno, Pedra do Americano, Biblioteca, Cidade Perdida, Pedra dos Canhões e Cachoeira do Riachão.
A análise classificou Cidade Perdida, Pedra da Tartaruga, Sítio Pequeno e Arco do Triunfo como geossítios de relevância regional. Já Biblioteca, Pedra do Americano, Cachoeira do Riachão e Pedra dos Canhões foram classificados como de relevância nacional.
Esse conjunto transforma o parque em um espaço de interesse não apenas para a conservação, mas também para a pesquisa científica, a educação ambiental e o turismo.


Um território importante para a fauna
Criado em 1961, o Parque Nacional de Sete Cidades possui uma história de mais de seis décadas de proteção ambiental. Seu primeiro Plano de Manejo foi elaborado em 1979 e já reunia informações sobre os aspectos biológicos, culturais, físicos e socioeconômicos da região.
Ao longo dos anos, estudos técnicos passaram a apontar a necessidade de ampliar os limites da unidade para fortalecer a proteção dos recursos hídricos e da fauna. A região abriga espécies como onças, veados, cutias, pacas, tamanduás-bandeira, tamanduás-mirins, porcos-do-mato e diferentes espécies de felinos silvestres, integrantes da fauna associada aos biomas Caatinga e Cerrado.
A ampliação do território protegido é especialmente importante para espécies que precisam de grandes áreas naturais para se deslocar, encontrar alimento e se reproduzir. Quanto maior e mais conectada a área protegida, maiores são as possibilidades de manutenção desses ambientes e dos processos ecológicos que sustentam a biodiversidade.

Uma discussão que atravessou décadas
A ideia de ampliar o parque não surgiu agora. Em 2007, após a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pesquisadores da instituição realizaram estudos técnicos que reforçaram a necessidade de expansão da unidade, principalmente para proteger a fauna e os recursos hídricos.
A discussão ganhou novo impulso a partir de 2023, com a revisão do Plano de Manejo do parque, construída de forma coletiva com diferentes atores locais. A ampliação dos limites representa, portanto, mais do que o acréscimo de uma área ao mapa. Significa aumentar o território onde a conservação pode acontecer e fortalecer a proteção de um patrimônio que reúne biodiversidade, água, memória humana e história geológica.
Nesse sentido, Sete Cidades passa a contar com um território maior para preservar aquilo que não pode ser reproduzido depois que desaparece: os ambientes naturais, as espécies que dependem deles e as marcas de diferentes tempos que permanecem gravadas na paisagem.
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