
Sobre política, memória, afetos e a difícil tarefa de continuarmos humanos.
Por Mallu Mendes – Mestranda em Comunicação- UFPI e Artista performática
Não quero começar falando da importância do momento político para a nossa existência. Quero começar falando daquilo que torna a própria existência possível: a vida, os encontros, os afetos, as memórias e a nossa capacidade de reconhecer humanidade no outro.
Mas é quase impossível falar da vida sem falar de política.
Porque a política nos atravessa antes mesmo de compreendermos o seu significado. Ela está no corpo que nasce, no território que habitamos, na comida que chega ou não à mesa, no direito de amar, de aprender, de envelhecer, de sonhar e, sobretudo, de continuar existindo.

E, apesar de tudo, seguimos.
Resistimos. Insistimos. Sobrevivemos.
E, de alguma forma, encontramos motivos para celebrar a vida.
Talvez porque tenhamos descoberto que até sorrir pode ser um ato político. Que nossos corpos são políticos. Que nossos afetos também são. Que permanecer sensível em um mundo atravessado pela brutalidade pode ser uma forma profunda de resistência e luta.
É nesse lugar que penso o religare.
Não necessariamente como uma experiência religiosa, mas como uma possibilidade de reconexão. Um reencontro com nossas memórias ancestrais, com a coletividade, com aquilo que nos constitui enquanto seres humanos, aquilo que nos permite compartilhar a vida
Religar o que foi rompido. Reaproximar o que foi afastado. Recuperar a capacidade de enxergar o outro para além das diferenças que nos atravessam. Religare como quem costura as dores do corpo e alma para que possa transbordar sementes de afetos
Talvez seja disso que estejamos precisando. Afetar-se pela existência do outro, da natureza, de ver o mundo com afeto ou como extensão de si mesmo

A estranheza das eleições de 2026
Há algo profundamente estranho nas eleições de 2026.
Vivemos um tempo em que a humanidade alcançou possibilidades extraordinárias de comunicação. Nunca tivemos tantos instrumentos para nos conectar, compartilhar conhecimentos, registrar histórias e aproximar territórios.
Entretanto, utilizamos parte dessa mesma capacidade para produzir hostilidade, disseminar desinformação, transformar diferenças em inimigos e naturalizar a violência.
Registramos tudo.
Registramos nossa desumanização de falas e ações
Filmamos a dor. Compartilhamos o desespero. Transformamos tragédias em conteúdos que desaparecem na velocidade de um movimento dos dedos sobre a tela.
Mas quanto tempo dedicamos a compreender o que aquelas imagens dizem sobre a nossa humanidade?
Em que momento a dor do outro deixou de nos interromper?
Em que momento passamos a considerar normal assistir à destruição de uma vida e continuar deslizando a tela como se nada tivesse acontecido?
A tecnologia ampliou nossas possibilidades de conexão, mas não garantiu que nos tornássemos mais capazes de conviver.
E essa contradição me inquieta ou melhor nos inquieta
De forma confortável ou desconfortável não dar pra afirmar que estamos permitindo discursos de ódio se conectarem de forma rápida ao invés de usarmos nossa existência para conectarmos porque é uma das coisas mais bonitas é a conexão na existência .
Falamos tanto em liberdade, mas nem sempre estamos dispostos a reconhecer a liberdade do outro. Defendemos nossos direitos, mas frequentemente encontramos dificuldades para compreender que eles precisam existir também para quem pensa, vive, ama ou acredita de maneira diferente.
Falamos tanto em liberdade que esquecemos que não controlamos a existência e muito menos os corpos porque mesmo que tentem aprisionar de alguma forma de liberta
Talvez um dos maiores desafios políticos do nosso tempo seja reconhecer que a existência do outro não representa, por si só, uma ameaça à nossa.
Entre Lula, o bolsonarismo e a disputa sobre o Brasil
As eleições brasileiras também revelam uma disputa que ultrapassa os nomes que aparecem nas urnas.
De um lado, o bolsonarismo, com suas interpretações sobre liberdade, autoridade, valores morais, segurança e organização da sociedade. De outro, o campo político identificado com Lula, marcado por outras concepções de Estado, proteção social, participação popular e enfrentamento das desigualdades.
São projetos com diferenças reais, contradições internas e distintas maneiras de compreender o papel da política na vida coletiva.
Mas seria insuficiente reduzir toda a complexidade do Brasil a dois nomes, duas cores ou duas identidades políticas.
O país é maior do que essa divisão.
Há pessoas que não se reconhecem integralmente em nenhum desses campos. Há divergências legítimas sobre economia, religião, costumes e políticas públicas. E há também questões que exigem atenção especial quando discursos ou práticas ameaçam direitos fundamentais, estimulam a violência ou deslegitimam as regras democráticas.
Discordar faz parte da democracia. Desumanizar o outro não deveria fazer.
É justamente nessa fronteira que precisamos aprofundar a reflexão.
A democracia não exige que pensemos da mesma maneira. Exige que possamos discordar sem transformar o adversário em alguém destituído de humanidade ou de direitos.
Também não significa aceitar tudo em nome da convivência. Uma sociedade democrática precisa estabelecer limites diante da violência, da discriminação e das tentativas de impedir que outras pessoas participem da vida pública.
E talvez seja essa uma das nossas tarefas mais difíceis: defender convicções sem abandonar a capacidade de escutar, reconhecer diferenças sem naturalizar injustiças e compreender que nenhuma identidade partidária esgota a complexidade de uma pessoa.
Por que ainda precisamos lutar pelo óbvio?
Há uma pergunta que não sai da minha cabeça: por que precisamos lutar tanto por aquilo que deveria ser óbvio? Por que ainda precisamos explicar que mulheres têm direito de viver sem violência? Que crianças precisam ser protegidas? Que pessoas negras têm direito à dignidade? Que ninguém deveria passar fome? Que a educação, a saúde, a moradia e a segurança não deveriam ser privilégios? Por que precisamos transformar o direito de existir em uma disputa permanente?
Talvez porque aquilo que chamamos de óbvio nunca tenha sido igualmente garantido a todas as pessoas. A história do Brasil nos ensina que direitos não surgiram simplesmente da generosidade das instituições. Muitos foram conquistados por pessoas que enfrentaram estruturas de poder, desafiaram silenciamentos e recusaram a ideia de que determinadas vidas valeriam menos do que outras.
E aqui reside uma contradição dolorosa: construímos uma sociedade capaz de reconhecer direitos em suas leis, mas ainda convivemos com profundas desigualdades na possibilidade concreta de exercê-los. A democracia, portanto, não pode se limitar ao direito de votar. Ela precisa ser percebida no cotidiano.
Na mulher que consegue sair de uma situação de violência. Na criança que encontra uma escola acolhedora. Na pessoa que recebe atendimento de saúde. Na família que tem alimento. Na juventude que consegue imaginar um futuro diferente daquele que lhe foi imposto.
Porque a democracia perde parte de seu sentido quando existe formalmente, mas permanece distante da vida de quem mais precisa dela.
O que estamos fazendo com a nossa humanidade?
De todos os lugares, chegam notícias de guerras, feminicídios, racismo, intolerância, fome e tantas outras formas de violência.
E, quando essas realidades atravessam a nossa própria porta, nosso corpo ou a nossa família, entramos em colapso.
O desespero deixa de ser uma notícia distante.
Passa a ter nome, rosto, cheiro, lembrança.
Talvez seja nesse instante que percebamos o quanto a vida é breve, frágil e imprevisível.
Sabemos tão pouco sobre o tempo que nos resta e, ainda assim, desperdiçamos parte dele tentando provar que a nossa existência vale mais do que a de alguém.
Há algo profundamente contraditório nisso.
Somos seres que necessitam do cuidado para nascer, crescer, adoecer e envelhecer. Dependemos uns dos outros para quase tudo. Nossa existência é atravessada por relações, trabalhos, saberes e afetos que muitas vezes sequer conseguimos identificar.
E, mesmo assim, alimentamos a ilusão de que podemos viver sem o outro.
A política deveria nos ajudar a organizar essa interdependência, e não negar a humanidade que compartilhamos.
Não se trata de romantizar a convivência ou fingir que os conflitos desaparecerão. Existem interesses antagônicos, desigualdades estruturais e disputas legítimas por poder.
Mas precisamos perguntar que tipo de sociedade estamos produzindo quando a crueldade passa a ser confundida com coragem e a humilhação do outro se transforma em espetáculo.
Talvez o Vira Voto seja também um convite ao reencontro

Tenho pensado que virar um voto pode ser muito mais do que convencer alguém a mudar uma escolha eleitoral.
Pode ser a oportunidade de abrir uma conversa que parecia impossível. De ouvir antes de responder. De compreender por que alguém pensa de determinada maneira. De apresentar ideias, confrontar informações falsas, reconhecer diferenças e permitir que o diálogo produza reflexão. De reconhecer os nossos sentimentos de raiva, ódio e acalentara-los com curas de escutas e presenças e de amor.
Isso não significa abrir mão das nossas posições, relativizar violações de direitos ou acreditar que todas as divergências podem ser resolvidas com afeto. Significa compreender que a democracia também depende da maneira como nos relacionamos com quem não pensa como nós.
Talvez o verdadeiro desafio seja não permitir que as disputas políticas destruam completamente os espaços de convivência, solidariedade e construção coletiva. Porque uma eleição termina. Mas a vida continua.
Mas pra vida continuar não dar para apertar 22 e dizer que é por mudança já que suas falas desumaniza uma massa e que neste momento apertar o 13 é um rio de possibilidades sem grandes certezas, mas que no mimimo tem visto outro como um ser sujeito de direito de viver a sua politica de bem viver e sonhar.
Sei lá ….13 nas urnas é uma esperança de dias melhores, de um convite a todas e todos de renascer vivo e de morrer nossa parte mais sóbria para nascer a nossa parte mais bela para conectar e afeta quem ainda tem dores no corpo
Continuaremos dividindo ruas, escolas, hospitais, territórios, espaços de trabalho e tantas outras experiências humanas.
E precisaremos decidir o que fazer com as relações que permanecerem depois das urnas. Por isso, penso o Vira Voto como uma possibilidade de religare. Um convite para reconectar política e humanidade. Para lembrar que por trás de cada escolha existem histórias, medos, expectativas, experiências e sonhos. Para compreender que ninguém deveria precisar abandonar a própria dignidade para participar de uma conversa política. E para reconhecer que o futuro de uma sociedade não se constrói apenas com vitórias eleitorais, mas também com a capacidade de transformar direitos em experiências concretas de vida.
Uma escrita de quem ainda acredita nos encontros
Este texto é, talvez, um desabafo.
De quem olha para o mundo e ainda não consegue compreender por que precisamos lutar tanto pelo direito de todas as pessoas sonharem e realizarem seus sonhos.
De quem sabe que a política pode produzir transformações, mas também reconhece as feridas que as disputas pelo poder deixam na vida cotidiana.
De quem acredita que o afeto não substitui a justiça, mas pode nos impedir de naturalizar a indiferença.
De quem compreende que a resistência não precisa ser feita apenas de enfrentamentos. Ela também pode nascer da escuta, da solidariedade, da memória e da alegria.
Não quero uma política que nos obrigue a deixar de sentir.
Quero continuar acreditando na possibilidade de uma vida coletiva em que as diferenças não sejam sentenças de exclusão e em que os direitos não dependam da identidade de quem os reivindica.
Talvez o religare seja justamente isso: reconhecer que nossas histórias são diferentes, mas que nossas vidas estão profundamente conectadas.
E que não existe democracia plena enquanto determinados corpos precisam lutar diariamente para provar que merecem existir.
No fundo, talvez a pergunta que nos acompanhe não seja apenas em quem vamos votar.
Mas que humanidade estamos construindo enquanto disputamos o direito de decidir os rumos do mundo?
Porque virar um voto pode mudar uma escolha.
Mas recuperar a capacidade de reconhecer a humanidade do outro pode transformar a maneira como vivemos a política.
E talvez seja esse o reencontro de que tanto precisamos.
Afinal, de que vale conquistar o mundo se, no caminho, perdermos a capacidade de viver nele uns com os outros?
13 nas urnas- pela democracia.
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